terça-feira, 9 de junho de 2009

Sobre a produção de literatura cristã

Tiago Santos


Recentemente tive a oportunidade de dar algumas palestras sobre a produção de literatura cristã. A instituição que me convidou, pediu-me que, como editor de livros, eu oferecesse uma palavra sobre a “arte da produção de literatura”. Achei válido o desafio e resolvi refletir um pouco sobre o tema, pensando sobre a vida de alguns homens de Deus que produziram muita literatura cristã. O texto que segue abaixo, portanto, é uma adaptação de uma das palestras que proferi naquela oportunidade.

Quando passei a considerar sobre a arte de produzir literatura, cheguei à conclusão que como cristãos de tradição evangélica histórica, devemos fazer as seguintes perguntas: por que escrever? De onde vem nossa motivação para escrever? Por que creio que o que escrevi é relevante para mim e para outras pessoas e, portanto, deve ser editado, publicado e distribuído...e lido?

Meditando estas coisas, pareceu-me oportuno refletir sobre o valor da literatura na vida do cristão. A conclusão que cheguei é um tanto obvia. O cristão ama a literatura porque Deus ama a literatura. Ele usou a literatura para se revelar a nós. O seu santo conselho veio na forma escrita. Atente para a importância desse fato, pois Deus deu importância à palavra escrita. Ele valorizou a literatura como meio de expressar uma mensagem que Ele considerou muito importante, imprescindível, necessária e vital. Ele é o autor principal do principal dos livros. O livro dos livros!

Mas, embora isso explique o amor do cristão pela literatura – e tudo o que ela representa – devemos agora pensar nas circunstâncias e motivação para a produção de literatura. Para tanto, consideraremos o exemplo de alguns servos do Senhor no passado que foram escritores prolíficos. Vejamos o que podemos aprender de seu exemplo.

C. H. Spurgeon, falando sobre a passagem de 2 Timóteo 4.13, quando Paulo pede a Timóteo que leve para si os seus livros e pergaminhos, disse o seguinte:

“...Paulo foi inspirado pelo Espírito, mas, ainda assim, quer livros! Ele esteve pregando por pelo menos 30 anos, mas, ainda assim, quer livros! Ele viu o Senhor, mas, ainda assim, quer livros! Ele foi arrebatado ao terceiro céu, e ouviu coisas que eram proibidas ao homem pronunciar, mas, ainda assim, quer livros! Ele escreveu a maior parte do Novo Testamento, mas, ainda assim, quer livros! O apóstolo disse a Timóteo e da mesma forma diz a todos os pregadores: ‘aplica-te à leitura’.

O homem que nunca lê, jamais será lido; aquele que nunca cita, jamais será citado. Aquele que nunca usa os pensamentos do cérebro de outros homens, prova que ele mesmo não tem cérebro. Irmãos, aquilo que é aplicável aos ministros também é verdade a todo o nosso povo. Você precisa ler. Renuncie o máximo possível todo tipo de leitura artificial, mas estude o máximo possível as sólidas obras teológicas, especialmente os escritores puritanos, e comentários da Bíblia. Estou completamente persuadido de que a melhor forma de você gastar o seu tempo de lazer é lendo e orando. Assim, você será capaz de extrair muitas informações dos livros, as quais depois poderão ser usadas como verdadeiras armas a serviço de seu Senhor e Mestre. Paulo clama: ‘Traga os livros`. Junte-se a ele nesse clamor.[1]

Nós veremos como alguns dos grandes escritores cristãos, antes de serem escritores, eram leitores; eles amaram o Livro dos livros. Leram muitos outros livros; e produziram sua própria literatura por razões claras e bem definidas.

A Palavra de Deus é um Livro:

John Piper, em seu pequeno livro de biografias, “O Legado da Alegria Soberana”, publicado em português pela Shedd Publicações, dedica praticamente todo capítulo sobre Martinho Lutero para mostrar que o caminho que pavimentou a Reforma foi a descoberta de Lutero que a Palavra de Deus chega até nós por meio de um livro.

Lutero foi uma das figuras mais extraordinárias da história da Igreja. Ele foi mais que um luzeiro, ou uma lanterna. Lutero foi um farol. O brilho de sua luz chegou a distâncias inimagináveis e ilumina até o hoje. Deus usou este homem de forma extraordinária.

Martinho Lutero (1483-1546) foi um grande produtor de literatura cristã e, no entanto, nunca fez disso um alvo para sua vida. Sua produção literária era fruto de sua atividade pastoral e acadêmica. Além do magistral trabalho de traduzir a Bíblia para o alemão [para, conforme ele disse, tornar Moisés tão alemão que ninguém desconfiaria que ele fosse um judeu], Lutero empreendeu dezenas e dezenas de outras obras teológicas, doutrinais, catequéticas, apologéticas, polemicas, políticas e até mesmo infantis e hinários, durante toda sua vida. Entre 1522 e 1524 Lutero produziu uma média de 446 obras teológicas, entre livros, folhetos e opúsculos. Isso sem falar que ele pregava várias vezes por semana e, às vezes, várias vezes por dia. Entre 1510 e 1546, o ano de sua morte, Lutero pregou mais de 3.000 sermões. E olha que entre a idade de 41 aos 62 anos ele era pai de uma família extensa.

A palavra impressa representou um papel fundamental na propagação da reforma protestante. As obras de Lutero tinham alcance internacional e a se multiplicavam de modo incontrolável e imprevisível.

Mas o grande motivador de Lutero foi o Livro dos livros. Ele descobriu que a Palavra de Deus fora entregue através de um livro. Para ele a Bíblia era a fonte primária da fé. Ele disse em certa correspondência que quando jovem lia a Bíblia tantas e repetidas vezes que era capaz de apontar a posição de um versículo só de ouvi-lo. Sua conversão ocorrera através do estudo incansável e reiterado do texto bíblico; por isso sua insistente ênfase na leitura das Escrituras e submissão de tudo quanto fosse escrito à sua autoridade como algo fundamental.

Ele nunca buscou ser um escritor profissional e não objetivava escrever por escrever ou mesmo porque julgava ser um “bom escritor”. Suas preocupações como pastor motivaram-no a escrever mais e mais obras. A paixão pela glória de Deus – que se revelou pela Palavra externa – era o que motivava Lutero a estudar tanto e a produzir tanto.

João Calvino, outro grande reformador, reputado por muitos como uma das mentes mais brilhantes da historia do cristianismo, foi também um dos principais – em termos de relevância, atualidade, fidelidade bíblica - produtores de literatura cristã da história da igreja.

Nascido em Noyon, na França, em 1509, converteu-se depois de haver recebido sua educação na área de direito em Paris e lá mesmo haver estudado teologia, e, em 1533, precisou sair às pressas da França e fugir para o exílio por conta da perseguição que deflagrou-se contra os protestantes locais.

Praticamente todo ministério de Calvino concentrou-se na cidade de Genebra, na Suíça, onde, em 1536 ele se refugiou. Calvino exerceu um ministério pastoral muito bem sucedido naquela cidade; ao longo do tempo em que ali permaneceu, implementou, pela pregação da Palavra, a visão de mundo da reforma em todas as áreas da vida da população. A pregação produziu efeitos em todas as esferas da vida religiosa e civil de Genebra. Durante seu árduo trabalho pastoral e elaboração de um complexo sistema eclesiástico na cidade, Calvino foi capaz de produzir 48 volumes de tratados e livros, os quais, na linguagem de John Piper, foram “martelados na bigorna da responsabilidade pastoral”. Destas 48 obras, destacam-se os comentários que escreveu de vários dos livros da Bíblia: Fez comentários em todos os livros do Novo Testamento (com exceção de Apocalipse) e em 13 dos livros do Antigo Testamento; todos escritas como sua devocional e, quando publicados, dedicados à reis, duques e príncipes de seu tempo.

Sua principal obra, possivelmente uma das obras primas da literatura cristã em todos os tempos, são as suas Institutas da Religião Cristã. Entre os anos de 1536 a 1559, Calvino publicou 8 edições das Institutas. A cada edição ele acrescentava mais e mais capítulos e, a última edição era um livro muito mais amplo, complexo e elaborado do que a primeira. As Institutas, segundo o próprio Calvino, era o que ele considerava como a única apresentação oficial de suas idéias religiosas. Ele a dividiu em 4 livros, os quais tratam da (I) Doutrina de Deus – a Criação e a Providencia; (II) dos fundamentos da doutrina da redenção, a pessoa e obra do Redentor Jesus Cristo; (III) o uso da redenção em relação ao individuo, incluindo as análises das doutrinas da fé, da regeneração, da predestinação e da justificação e (IV) o livro que trata da Igreja, a comunidade redimida[2]. Quando Calvino justificou as razões que o motivou a preparar as Institutas: “...por causa dos muitos fieis e não poucos santos que estavam sendo queimados (...) Pareceu-me que, a menos que me opusesse com o máximo de minhas habilidades, meu silêncio não poderia ser inocentado da acusação de covardia e traição. Foi essa a consideração que me induziu a publicar as minhas Institutas da Religião Cristã (...) Elas não foram publicadas por nenhum outro motivo , senão aquele de fazer com que os homens soubessem qual a fé dos homens que vi sendo tão vil e cruelmente caluniados[3]”.

O espírito dos escritos de Calvino pode ser percebido em suas próprias palavras, quando ele faz o argumento de seu comentário à primeira epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios: “O primeiro passo, para servirmos a Cristo, é esquecer-nos de nós mesmos e pensar tão somente na glória do Senhor e na salvação dos homens. Além do mais, ninguém jamais estará aparelhado para o ensino se antes não for absorvido pelo poder do evangelho, de modo a falar não tanto com seus lábios, mas com o próprio coração”[4].

Calvino foi o pai espiritual de incontáveis igrejas de toda a França, durante o período em que ministrava em Genebra, por meio das inúmeras cartas que enviava aos pastores e presbíteros, para encorajá-los e ensiná-los, num ministério semelhante ao do apóstolo Paulo, e por meio de suas publicações.

E todo o trabalho pastoral, administrativo, familiar e literário de Calvino era realizado mesmo vivendo um quadro de saúde com problemas gravíssimos. Em uma carta para seu médico Calvino descreve seus sintomas: cólica, vômito de sangue, febre, calafrios, gota, hemorróidas, pedra no rim, indigestão, ulceras e emissão de sangue pela urina.

A motivação de Calvino para produzir literatura cristã era a exaltação da majestade de Deus; era o seu cuidado pastoral; era seu desejo de nutrir e sustentar a Igreja; era seu desejo de encorajar os mártires; era seu profundo amor pela gloria de Deus.

O Peregrino é reputado como o livro mais publicado e lido em toda a história depois da Bíblia. Seu autor, John Bunyan, nascido na Inglaterra da era puritana em 1628, foi um homem de muitas dores e sofrimento. De infância pobre, recebeu uma educação precária e se tornou ferreiro por profissão; sua história, entretanto, está intimamente ligada com a literatura.

O início de seu processo de conversão se deu através da leitura dos dois únicos livros que tinha em casa; herança recebida pela esposa. A leitura desses livros causou forte impressão em John Bunyan e fez-lhe refletir com mais seriedade sobre a sua situação de sua alma diante de Deus. Alguns anos depois de sua conversão, ele ficou viúvo e sua esposa deixou-lhe 4 filhos, sendo uma delas cega. Ele casou-se novamente com uma mulher muito piedosa, que foi sua companheira e ajudadora o resto de sua vida; tornou-se pastor de uma congregação batista e, a partir da década de 1660, com o retorno da monarquia e a proibição do ministério de pregação leiga e não conformista, Bunyan passou a ser encarcerado em inúmeras oportunidades. A soma do tempo em que Bunyan passou na prisão totaliza 12 anos.

Foi na prisão que Bunyan escreveu sua obra prima, O Peregrino. O livro alcançou notoriedade quase que imediatamente. No entanto, segundo o historiador Christopher Hill, Bunyan escreveu cerca de 58 obras! A maior parte de seus escritos tinha como propósito ajudar os peregrinos a percorrer o caminho que leva ao Céu. Escreveu obras evangelísticas; escreveu sobre a conversão; sobre a santidade; sobre a edificação dos santos; sobre as batalhas cristãs.

Sobre ele, era dito que seu sangue era composto de versículos bíblicos. Tudo que Bunyan escrevia era repleto da Bíblia. Na verdade, a Bíblia era o livro que ela carregava consigo a maior parte do tempo. Ele demonstrava grande temor, reverência e submissão diante das Escrituras. Bunyan disse que “prefiro morrer com os filisteus a corromper a bendita Palavra de Deus”.

Há muitos outros exemplos de servos do Senhor, produtores de literatura cristã, que poderíamos mencionar. John Owen e todos os demais puritanos; Jonathan Edwards; Charles Spurgeon – cuja biografia dá conta que aos quinze anos ele já amava as letras e lia, no sótão da casa de seu avô, obras dos puritanos, a história da igreja e dos mártires cristãos, etc – Dr. Martin Lloyd Jones, enfim, tantos outros homens de Deus que produziram obras quase que em escala industrial! Muitos deles, como vimos, o fizeram debaixo de muitas dificuldades e sempre envolvidos em tantas outras tarefas.

O exemplo desses homens pode nos ensinar muitas coisas, quando pensamos em produção de literatura cristã.:


  1. Todos os grandes escritores cristãos tinham um apego imenso pelo Livro dos livros, a Bíblia. Na verdade, eles a conheciam intimamente. Eles a leram, e releram, e assim o fizeram durante todos os anos de sua vida.

  2. Seu amor pela literatura era derivado, portanto, de seu amor pela Palavra de Deus e sua compreensão de que a Palavra de Deus é a expressão do próprio ser de Deus. Seu amor pela gloria e majestade de Deus os impeliu a produzir literatura que refletisse essa realidade.

  3. Sua produção literária era fruto de suas preocupações pastorais e ministeriais. Muito do que esses servos do Senhor escreveram era direcionado para nutrição do povo de Deus que estava sob a responsabilidade pastoral deles.

  4. A produção literária nunca foi sua maior ênfase. Era um reflexo. Era parte de sua atividade ministerial, não a motivação central de seu ministério.

  5. Os escritos destes homens eram um retrato de seu próprio ministério; era a reprodução do momento em que viviam e das respostas que julgavam ser necessárias oferecer à Igreja e à comunidade cristã. Eles eram movidos pela relevância e pela urgência das situações que a providencia lhes impunha.

  6. Os escritos desses homens eram forjados no cadinho das Escrituras e tinham como alvo tornar a mensagem cristã mais acessível aos homens.
Assim, caso nós entendamos que devemos nos engajar na atividade de produção literária, que o façamos calcados no exemplo desses servos, e com a mesma motivação que possuíam.

O teólogo e poeta Henry Law, ao contribuir com sua porção na produção de literatura cristã, disse no prefácio de um de seus livros que o conhecimento da salvação o impele a escrever e tornar a mensagem da graça conhecida. Ele diz o seguinte:

Portanto a vergonha, a culpa e a miséria seriam a minha porção, se eu deixasse de empregar qualquer esforço a fim de desvendar a gloriosa imagem de Cristo. Ao contrário, que eu use todo o poder da vida e da pena para magnífica-lo e exalta-lo; a fim de implorar aos homens que o contemplem, que o busquem, que o recebam, que o amem, que o sigam, que o sirvam, que o recomendem e que vivam nele, por intermédio dele e para ele. Assim, desejo esforçar-me, com a ajuda do Espírito, para assaltar, abrandar e conquistar corações, a fim de que Cristo seja ali entronizado, em toda a sua majestade, como um Senhor amado e adorado.”

Salomão nos adverte, com realismo impressionante, em Eclesiastes 12.12, que “...não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne. De tudo que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem.”

Diante deste alerta, devemos nos certificar de que nossas motivações são corretas, quando falamos em produção de literatura cristã.

E assim, encerro lançando esse desafio a você, que deseja produzir literatura cristã:

Escreva! Mas submeta tudo o que produzir; submeta sua consciência à autoridade suprema das Escrituras. Submeta seu texto ao crisol das Escrituras. Certifique-se que seu texto está submetido à autoridade da Palavra; que seu texto honra a Palavra e que, à semelhança de Davi, você pode afirmar com segurança que exalta e louva a Palavra de Deus.

Escreva! Mas, antes de escrever ame a leia as Escrituras. Estude-a com reverência. Interprete-a em seu contexto; aproxime-se da Palavra de Deus em oração e contrição. Conheça as línguas originais das Escrituras. Use as ferramentas de interpretação. Dicionários de grego e hebraico. Leia bons comentários bíblicos.

Escreva! Mas, antes de fazê-lo, leia boa literatura cristã. Compulse a boa literatura que já tem sido produzida pelos servos do Senhor de todas as épocas. Leia a história da Igreja; leia bons materiais teológicos. Leia biografias de servos do Senhor que dedicaram suas vidas à causa do reino.

Escreva! Mas, antes de faze-lo, leia boa literatura secular. Exercite sua mente e intelecto através de obras consagradas da literatura brasileira e estrangeira. Enriqueça sua cultura por meio da boa poesia, da boa literatura clássica.

Escreva! Mas esteja atualizado sobre as tendências do momento. Sobre os perigos doutrinários que assolam a igreja. Mantenha-se atualizado quanto à situação política, social e principalmente religiosa .

Escreva! Mas faça-o com sensibilidade, considerando as necessidades do povo de Deus que esta ao seu redor e que depende de seu ensino e orientação.

Escreva com a convicção de que você tem algo a dizer. De que tem um conselho bom a oferecer. De que sua palavra será relevante e útil para a edificação da Igreja e gloria do Pai.




[1] Duncan, Lingon – citando C. H. Spurgeon [sermão 452 – Paul – His cloak and his books – 1882]; Amado Timóteo. Editora Fiel 2005. São José dos Campos – SP.
[2] MacGrath, Alister – A Vida de João Calvino. Cultura Cristã 2004. São Paulo-SP.
[3] Piper, John – O legado da Alegria Soberana. Shedd 2005. São Paulo-SP. Pp 136.
[4] Calvino, João – 1 Coríntios. Parakletos / Fiel 2003. São Bernardo do Campo-SP. P. 17

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Filosofia de ministério pastoral

Já que toda a prática é a prática de alguma teoria, é preciso articular claramente a base teológica da prática ministerial. Por isso, uma filosofia bíblica do ministério pastoral é essencial àqueles que servem à igreja. Nesse caso, temos outra questão importante, nesse tempo de profissionalização ministerial: é necessária uma filosofia de ministério que reflita as demandas bíblicas do serviço cristão, para estabelecer a base adequada pela qual o ministro e o povo de Deus saberão de forma clara a que tarefa aqueles foram chamados por Deus e separados pela igreja.

Comecemos com o texto bíblico, que afirma: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre. Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas, porquanto o que vale é estar o coração confirmado com graça e não com alimentos, pois nunca tiveram proveito os que com isto se preocuparam. (…) Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. (…) Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.7-9, 15, 17). A partir desse texto, precisamos perguntar: como podem ser descritas a tarefa dos servos da Palavra, segundo a Escritura Sagrada e ilustrada na história da igreja?

1. Buscam a santidade
Prioritariamente, como o fundamento do serviço cristão, os pastores são chamados a buscar a santidade em tudo o que fazem. Seu alvo supremo é resumido pela primeira pergunta e resposta do Breve Catecismo de Westminster: “Qual o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre”. Com esse grande alvo, os verdadeiros pastores guiarão suas congregações pelo exemplo, na busca pela glória de Deus e da plena alegria nele. A partir dessa ênfase, podemos resumir a disposição interna dos pastores nos seguintes pontos:

1.1. Os ministros cristãos devem depender do Espírito Santo. O pastor conhece sua incapacidade de salvar um pecador, entende que a conversão é um drama complexo e multifacetado e sabe que a pregação é o único meio para chamar os eleitos à conversão. Sabe a seriedade em administrar os sacramentos da graça diante do povo de Deus. Por tudo isso, a oração constante do pastor será uma súplica, urgente e dependente, para que o Espírito Santo venha com poder sobre sua vida e ministério.

1.2. Por causa da necessidade de dependência do Espírito Santo, os ministros precisam ser homens de oração incessante, que lutam com Deus. Isso lembra a história que se conta de Thomas Shepard, que foi ministro na Nova Inglaterra. Por ocasião da transferência de sua residência para outra cidade, ele notou: “Está faltando uma coisa aqui. Onde está o quarto de oração de minha casa pastoral?” Por conta da ausência do quarto de oração, ele sugeriu que ali começava a decadência dos Estados Unidos. Os verdadeiros pastores do povo de Deus sabem o que é agonizar na oração, pois sabem que a oração é o meio da graça pelo qual o Espírito visitará o ministério pastoral e a igreja.

1.3. Por causa da busca pelo Espírito, os ministros buscam a santidade em toda a sua vida. Podemos listar os requisitos bíblicos exigidos do pastor: não deve ser arrogante (Tt 1.7); não deve ser dado ao vinho (1Tm 3.3; Tt 1.7); não deve ser violento (1Tm 3.3; Tt 1.7); não deve ser irascível: (Tt 1.7); deve ser inimigo de contendas (1Tm 3.3); não deve ser novo convertido (1Tm 3.6); deve ser irrepreensível (1Tm 3.2; 1Tm 5.7; 6.14; Tt 1.6, 7), “despenseiro de Deus” (Tt 1.7), esposo de uma só mulher (1Tm 3.2; Tt 1.6), temperante (1Tm 3.2, 11; Tt 2.2), sóbrio (1Tm 3.2; Tt 1.8; 2.2, 5), modesto (1Tm 3.2), hospitaleiro (1Tm 3.2; Tt 1.8), apto para ensinar (1Tm 3.2; 2Tm 2.24), cordato (1Tm 3.3; Tt 3.2), não avarento (1Tm 3.3), não ganancioso (Tt 1.7), deve governar bem a própria casa (1Tm 3.4, 5, 12; Tt 1.6). Deve criar seus filhos com disciplina e respeito (1Tm 3.4), tendo bom testemunho dos de fora (1Tm 3.7), amigo do bem (Tt 1.8), justo (Tt 1.8), piedoso (Tt 1.8); deve exercer o domínio próprio (Tt 1.8), e ser apegado à Palavra (Tt 1.9). Todas essas características são ligadas ao caráter do ministro, descrevendo quem ele deve ser em sua vida privada e pública. Em resumo, pastores buscam ser precisos porque servem a um Deus preciso.

1.4. Diante disso, dia a dia o pastor deve se examinar, fazendo algumas perguntas: Como está sua vida de oração secreta? Ele busca comunhão com o Deus criador e todo-poderoso, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que é comunhão eterna? Será que ele entende que deixar de orar o levará ao desastre? Ele coloca seu coração nas coisas eternas? É sua paixão glorificar a Deus, buscar a santidade e falar contra o pecado?

2. Enfatizam a pregação
2.1. A segunda pergunta e resposta do Breve Catecismo de Westminster diz: “Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar? A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Velho e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de o glorificar e gozar”. Em outras palavras, os ministros cristãos, que entendem que a glória de Deus é o tema central de suas vidas, crêem que somente por meio das Escrituras conseguirão glorificar a Deus e se alegrar nele para sempre. Em outras palavras, as Escrituras se tornam a regra de fé (regula fidei) da devoção e da pregação cristã. O ministério pastoral é o serviço à Palavra de Deus.

2.2. Por receberem com seriedade as Escrituras como a Palavra de Deus inspirada e autoritativa, os pregadores devem priorizar a pregação expositiva. Como disseram de Zuínglio, os servos da Palavra devem se recusar “a cortar em pequenos pedaços o evangelho do Senhor”. A pregação deve ser expositiva, isso é, deve expor com fidelidade a idéia central da passagem pregada. Mas essa pregação também deve ser seqüêncial, na medida em que o texto é sempre pregado em referência a seu contexto imediato (o capítulo) e seu contexto mais amplo, que é o livro em que a passagem se encontra e o cânon bíblico como um todo. Por isso, os ministros cristãos devem pregar toda a Palavra de Deus, seqüêncialmente, pois sabem que somente o Espírito Santo, ligado à Palavra, pode salvar pecadores.

2.3. Ligada à enfase na pregação expositiva seqüêncial, os ministros devem ser pregadores doutrinais. Devem pregar “todo o conselho de Deus” (At 20.27) para o povo. O pregador não deve superestimar a condição espiritual da comunidade cristã. Ele deve sempre voltar às doutrinas cristãs mais básicas, o “cristianismo básico” (John R. W. Stott), ou o “cristianismo puro e simples” (C. S. Lewis): Deus o Pai, o Filho e o Santo Espírito; criação, queda, redenção e restauração; a oração e a devoção; a vida cristã e a lei moral; as principais narrativas e os principais personagens bíblicos. Ano após ano, ele deve voltar às questões mais simples da fé cristã. Mas, a partir daí, deve seguir para as doutrina do pecado e incapacidade humana, de Jesus Cristo, a “ordem da salvação” (ordo salutis), as últimas coisas.

Os ministros também precisam se opor ao conceito de graça barata, porque esta não é a graça verdadeira. A graça barata não é a graça salvadora, que é graça custosa, já que Deus entregou seu único Filho para morrer por pecadores. E por isso, graça que exige a totalidade da vida dos que a recebem. Os servos da Palavra não diminuem as exigências do Evangelho ao pecador.

2.4. Os ministros da Palavra devem ser pregadores práticos, lidando com os casos de consciência. Eles devem aplicar a Escritura àqueles que ainda estão em seus pecados, aos que estão lutando com alguma doença ou passando pela noite escura da alma, aos que estão em dúvidas, e assim por diante. Como um puritano disse certa vez: “O pregador, que é seu melhor amigo, é o que vai dizer mais verdades sobre ti mesmo”.

2.5. Os ministros da Palavra devem ser evangelistas. Culto após culto, a audiência que se reune para ouvir a Palavra deve ser chamada, vez após vez, a se converter de seus pecados, a buscar no Espírito a fé e o arrependimento, obedecendo em humildade a Cristo Jesus. Essa ênfase evangelística deve estar presente nas conversas particulares e no trato pessoal no pastor.

2.6. A prática da pregação de Martinho Lutero, em Wittenberg, é uma boa ilustração da centralidade da Palavra no ministério cristão. No auge de seu ministério na Igreja do Castelo, no domingo, às 5h, ele pregava nas Epístolas Paulinas; ainda no domingo, às 9h, pregação nos Evangelhos Sinóticos; e no domingo à tarde, pregação no Catecismo Menor; Nas segundas e terças, pregação no Catecismo Menor; na quarta, pregação no Evangelho de Mateus; na quinta e na sexta, pregação nas Epístolas Gerais; e, no sábado, pregação no Evangelho de João. Aqui temos um bom modelo de pregação numa congregação, onde estilos literários bíblicos diferentes são bem combinados na pregação, e unidos com aulas catequéticas. Por isso, Lutero podia afirmar: “Eu prego ensinando, e ensino pregando”. Em outras palavras, o ministro cristão será um “pastor ensinador” (cf. a tradução de Markus Barth para Ef 4.11).

2.7. O que Richard Baxter escreveu sobre a pregação afirma a solenidade e seriedade da pregação da Palavra, que é requerida de todo ministro cristão: “Não é coisa pequena ficar em pé diante de uma congregação e dirigir uma mensagem de salvação ou condenação, como sendo do Deus vivo, no nome do nosso redentor. Não é coisa fácil falar tão claro, que um ignorante nos possa entender; e tão seriamente que os corações mais desfalecidos nos possam sentir; e tão convincentemente que críticos contraditórios possam ser silenciados”.

3. São doutrinais
3.1. Nos voltamos agora ao conteúdo da pregação. Comecemos resumindo a convicção do apóstolo Paulo sobre a tarefa dos “pastores ensinadores” (cf. Ef 4.11). Segundo Paulo, Deus ordena que os ministros encarem com seriedade a preservação e ensino das doutrinas cristãs. As palavras do apóstolo: “Guardando o mistério da fé numa consciência pura” (1Tm 3.9); “Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15); “Retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9); “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (2.1).

3.2. Por isso, precisamos considerar o devido lugar da doutrina na estrutura bíblica. Aprendemos nas Escrituras que nosso entendimento doutrinário guia todas as esferas de nossas vidas. Um rápido estudo das epístolas escritas pelos apóstolos Paulo e Pedro ilustram o relacionamento entre a doutrina cristã e a prática cristã, ou, entre aquilo que se deve crer e como se deve viver (credenda e agenda). Por exemplo, em Romanos, temos exposição doutrinal nos capítulos 1 a 11, e exposição prática nos capítulos 12 a 16. Em Efésios, temos exposição doutrinal nos capítulos 1 a 3, e exposição prática nos capítulos 4 a 6. Em Gálatas, temos uma variante ligeiramente diferente: testemunho nos capítulos 1 e 2; exposição doutrinal nos capítulos 3 e 4; e exposição prática nos capítulos 5 e 6. Ainda que essa divisão não seja absoluta, já que Paulo entremeia sua exposição doutrinal com várias aplicações práticas, essa divisão tem sido percebida pelos principais estudiosos das epístolas paulinas. No caso dos escritos de Pedro, só temos uma mudança de forma, não de estrutura. Como se percebe em 1Pedro, vemos uma exposição prática na primeira parte (por exemplo, 1Pe 1.1-12 cf. 1.13-25), seguida das razões doutrinais de tal prática. No que se refere ao evangelho de João, como já se brincou, o tema é dado no prólogo teológico de Jo 1.1-14 – e tudo o mais seria nota de rodapé, no sentido de ser um desdobramento das declarações trinitárias afirmadas naquele texto. Mais uma vez, os ministros cristãos estão comprometidos a pensar teologicamente, já que lidarão com dramas que demandam respostas teológicas. O evangelho de Mateus é estruturado em torno de cinco grandes discursos de Jesus, que formam o eixo pelos quais as narrativas são desdobradas. No Antigo Testamento, tal estrutura permanece, na medida em que as narrativas históricas são desdobramentos e ilustrações das bênçãos e maldições pactuais, reveladas e expandidas no Pentateuco; as profecias são as pregações dessas bênçãos e maldições pactuais ao povo da aliança; e os livros poéticos são aplicações concretas e celebração das bênçãos e maldições pactuais.

3.3. O que William Perkins escreveu permanece, ainda hoje, como o resumo do conteúdo da pregação evangélica: “Pregar a Cristo, em Cristo, para a glória de Cristo” (The sum of the sum: preach one Christ by Christ to the praise of Christ).

3.4. Por tudo isso, os pastores devem estudar com afinco a teologia cristã, em interação com o passado, mas tentando entender o presente. Eles também precisam se atualizar constantemente. E, a partir do estudo da teologia cristã, os ministros devem construir pontes com as várias vocações e relacionamentos representadas na igreja, testemunhando aos fiéis a força motivadora e impulsora da teologia cristã em nossas relações com as várias esferas da criação. O esforço nesse campo trará grandes recompensas, não apenas à igreja onde tal ministro serve, mas especialmente ao próprio ministro.

Aqui cabe uma palavra de alerta: ainda que a doutrina cristã seja o conteúdo da pregação, essa é determinada pelo texto bíblico. A pregação bíblica é exposição bíblica. As doutrinas cristãs funcionam como sinais que guiarão a pregação cristã. O papel do pregador não é expor a dogmática no púlpito; mas usá-la como guia na interpretação e pregação da Palavra à comunidade cristã.

3.5. De outro lado, o alvo do esforço teológico é a glória de Deus. A teologia cristã deve ser estudada e meditada como ato de culto. Como G. C. Berkouwer afirmou: “Senhores, todos os grandes teólogos começam e terminam a sua obra com uma doxologia!” Aqueles familiarizados com a literatura cristã poderão ver esse principio exemplificado nas obras de Irineu, Atanásio, Agostinho, Anselmo, Lutero, João Calvino, Richard Baxter, Jonathan Edwards e Dietrich Bonhoeffer. O esforço teológico não é um fim em si mesmo; a Deus deve ser dada a glória em tal serviço à igreja.

3.6. Até mesmo a oração, a atitude mais básica do cristão, é guiada por nossas crenças doutrinais. Podemos ilustrar isso com a famosa oração de Anselmo de Canterbury, que orou assim: “Senhor, agradeço-te por me teres criado segundo a tua imagem, para que te conheça e ame. Mas essa imagem se acha de tal modo corrompida por pecados, que não consegue cumprir a tarefa para a qual foi criada, a não ser que tu a renoves e recries através da fé em teu Filho crucificado, Jesus Cristo. Desejo apenas entender uma pequena parcela de tua verdade, que meu coração crê e ama. Pois não procuro compreender para poder crer, antes, creio para poder compreender”. Por tudo isso, devemos lembrar da frase de Lutero: “Não existe cristianismo onde não há afirmações”.

4. Eles pastoreiam outros cristãos
4.1. Os ministros cristãos precisam ter uma visão exaltada do ministério pastoral. Eles precisam ter em mente que a igreja pertence a Deus, a mais ninguém, conseqüentemente, devem trabalhar muito sério nela. Seu papel é, na força do Espírito, no processo de ajuntar os eleitos, alimentar as ovelhas e expulsar os lobos do meio do rebanho. Isso se dá pela pregação da Palavra, pela administração correta dos sacramentos e pelo cuidado pastoral – tarefas que tem definido o ministério pastoral durante os séculos.

4.2. A seriedade do serviço ao povo de Deus pode ser ilustrada na carta que um idoso pastor puritano escreveu a um de seus alunos, recém-ordenado, e que servia numa pequena congregação: “Eu conheço a vaidade do seu coração e uma das coisas que vai atingi-lo profundamente é que a congregação, que lhe foi confiada, é muito pequena, principalmente quando você a compara ás congregações de seus irmãos ao seu redor. Mas sinta-se seguro em uma palavra vinda de um homem já idoso e experimentado. Quando estiver perante Cristo, prestando conta dessa congregação que recebeu, lá no trono de julgamento, você saberá que recebeu o suficiente”.

4.3. Seguindo o ensino das Escrituras, os ministros cristãos nunca trabalham sozinhos na igreja local. De acordo com o testemunho bíblico, as igrejas locais são dirigidas por uma pluralidade de presbíteros (At 14.23; 16.4; 20.17; 21.18; Tt 1.5; Tg 5.14). E, segundo a Bíblia, esses presbíteros servem em paridade, não havendo uma hierarquia nessa classe, no serviço numa igreja local. O papel desses presbíteros é administrar a igreja, assim como pregar e ensinar fielmente a Palavra. Diferente dos modelos de crescimento de igreja tão em voga em nossa época, o testemunho da Escritura enfatiza que o papel dos ministros cristãos é equipar o povo de Deus para que este glorifique a Deus na criação, cumprindo os mandatos criacionais. Em outras palavras, não é papel do ministro que se quer radicalmente bíblico estimular em sua comunidade uma mentalidade de fortaleza, em oposição radical à criação, ou estimular uma mentalidade de mosteiro, onde os cristãos são instados a suportarem sua vida na criação, e encontrarem realização apenas dentro da esfera eclesiástica. Longe disso, a tarefa pastoral é enviar os cristãos à criação, como agentes da antecipação escatológica da restauração de toda a criação. Nesse sentido, as únicas pessoas chamadas a encontrar realização no serviço eclesiástico são justamente aqueles chamados ao ministério da Palavra e dos sacramentos. A tarefa dos outros cristãos, equipada e pastoreada por esses, é glorificar a Deus lá fora, na criação, encontrando realização pessoal e profissional em sua vocação secular.

4.4. Os pastores mais experientes treinam os novos pastores. Os seminários teológicos protestantes, como os conhecemos hoje, somente foram instituídos há cerca de 150 anos. A forma antiga de preparo ministerial era simplesmente levar o estudante do ministério a trabalhar sob responsabilidade de ministros mais experientes. Seminários – pelos menos os ortodoxos e saudáveis – oferecem conteúdo teológico e rigor acadêmico, não mais do que isso. Deus concede pastores à igreja não através de seminários, mas por meio do testemunho e ajuda de outros pastores, mais experientes, e fieis no serviço às igrejas.

4.5. Em suas visitas, os ministros cristãos, precisam redescobrir a catequese. Esse é o modelo por excelencia para guiar as conversas na visitação pastoral e o aprofundar os temas básicos da pregação dominical. Desde que a catequese entrou em declínio nas igrejas protestantes, por volta do fim do século xviii, a igreja cristã não consegui encontrar nenhum outro modelo tão eficaz para moldar a congregação de acordo com os ensinos principais da fé cristã. Então, podemos e devemos redescobrir a visitação catequética, mesmo em contextos urbanos, de grande mobilidade e distinções sociais.

4.6. Os ministros da Palavra, em suas visitas, devem servir como pastores e teólogos. Como exemplo, podemos estudar as vidas de William Perkins e Karl Barth. Ambos foram grandes teólogos no tempo em que viveram; ambos lecionaram em grandes universidades; e ambos pregavam semanalmente nos presídios das cidades onde viviam. Em suma: devoção, pregação ênfase doutrinal e cuidado pastoral devem ser mantidos juntos num ministério que almeja ser serviço cristão, de fato, à igreja de Deus.

Podemos concluir com duas histórias, que resumem o que foi escrito acima:

Em 1727, Jonathan Edwards, que se tornaria o maior teólogo nascido nos Estados Unidos, foi ordenado ao pastorado. Ele nos conta o que escreveu em sua ordenação: “Dediquei-me solenemente a Deus e o fiz por escrito, entregando a mim mesmo e tudo que me pertencia ao Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma… travando, assim, uma batalha com o mundo, a carne e Satanás até o fim da vida”.

Sob o reinado de Maria Tudor, a sanguinária, muitos ministros e bispos foram queimados na estaca, a ponto disto ter se tornado um evento comum. Charles Spurgeon, o grande pastor batista vitoriano, relatou a seguinte história aos alunos de sua Escola de Pastores. Durante o reinado de Maria Tudor, um homem notou um grande número de pessoas viajando, logo ao amanhecer, na estrada de Smithfield, um lugar geralmente usado para as execuções. Ficou imaginando o que traria um tão grande número de pessoas à rua, fora de suas casas, àquela hora do dia. Então perguntou a um homem que passava: “Para onde estão indo vocês?” Ao que respondeu o homem: “Estamos indo a Smithfield, para ver o nosso pastor ser queimado”. Estão lhes disse: “Porque desejam ver tal coisa? Que proveito isso lhes trará?” Responderam: “Vamos ver o nosso pastor ser queimado para aprendermos o caminho”.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Projeto Biblioteca do Pastor

Gostaria de apresentar aos leitores do blog um dos ministérios da Editora Fiel, o Projeto Biblioteca do Pastor. Esse projeto é coordenado por Pr. Kevin e Edinéia Millard.

Projeto Biblioteca do Pastor

Kevin e Edinéia estão casados há 15 anos, e têm um casal de filhos, Deborah e Stephen. Eles são missionários da South Woods Baptist Church, Memphis, TN, nos Estados Unidos. Eles serviram ao Senhor por cinco anos como missionários na Albânia, antes de chegarem ao Rio de Janeiro, em 2000. Por sete anos trabalharam em Niterói, onde plantaram a Igreja Batista Fiel. No fim do ano de 2006 a família Millard foi convidada por Pr. Richard Denham para trabalhar com a Editora Fiel, em São José dos Campos, SP. Em julho de 2007 mudaram-se para esta cidade e começaram a trabalhar como coordenadores do Projeto Biblioteca do Pastor da Editora.

Eles responderam as seguintes perguntas sobre esse projeto:

1) O que é o projeto Biblioteca do Pastor?
O Projeto Biblioteca do Pastor é um ministério da Editora Fiel que foi criado para ajudar pastores e seminaristas em paises de lingua portuguêsa. Hoje o Projeto está ajudando pastores em quatro países: Brasil, Portugal, Moçambique e Angola.

2) Quantos pastores e seminaristas participam do projeto?
No momento temos 300 no Projeto, sendo a maioria deles brasileiros (205). Em segunda lugar são os pastores moçambiquanos com quase 70 participantes.

3) Que benefícios eles recebem?
Os participantes do Projeto recebem um livro por mês (ou dois livros a cada dois meses) e ajuda para participar da conferência anual da Editora Fiel no seu país. A maior parte dos livros que os pastores recebem são publicados pela Editora Fiel. Esses benefícios são feitos possiveis atráves de doações de mantenedores (estrangeiros e brasileiros).

4) O que é necessário fazer para se entrar no projeto?
Para entrar no Projeto, o pastor ou seminarista precisa preencher uma ficha de inscrição e entrar em nossa Lista de Espera. A sua inclusão no Projeto pode demorar alguns anos. A Lista de Espera é muito grande, especialmente aqui no Brasil. Para maiores informações ou para obter uma ficha de inscrição, o interessado pode escrever para pastors@editorafiel.com.br, ou visitar nossa site www.editorafiel.com.br. Informamos também que igrejas brasileiras (ou mesmo indivíduos) também podem participar deste Projeto adotando um pastor.

5) Quais são as responsabilidades daqueles que já fazem parte do projeto?
As responsibilidades principais para os participantes do Projeto são: escrever uma carta bimestralmente ao seu mantenedor, participar na Conferência Fiel quando possivel e manter seu endereço sempre atualizado.

6) Qual o tempo de permanência no projeto?
Normalmente, os participantes permanecem no Projeto por três anos. Este é um período suficiente para eles formarem uma boa biblioteca pastoral e participar em uma ou duas conferências.

7) Como faço para adotar um pastor pelo projeto?
Para adotar um pastor, contacte-nos pelo e-mail pastors@editorafiel.com.br ou telefone (12) 3936-2529.

8) Como posso ajudar?
Ore pela Editora Fiel e por esse Projeto. Ore pelos pastores e seminaristas que estão no Projeto, e pelos demais, que estão esperando por um mantenedor. A Editora Fiel tem várias despesas durante o ano (além desse projeto, publicação de livros, duas conferências, revistas, correios, etc.) e ofertas de igrejas e de irmãos em Cristo para este Projeto são muito bem-vindas.

Projeto Biblioteca do Pastor

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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O chamado para o ministério da Palavra

Nas Escrituras, do começo ao fim, Deus é o Senhor que chama. Ele chama graciosamente pecadores ao arrependimento e à fé em Cristo. Por obra e graça do Espírito Santo, aqueles que anteriormente estavam mortos em seus pecados, que eram escravos do mundo, da carne e do diabo, são chamados e regenerados para viver uma nova vida em Cristo, chamados para provarem o poder da vida vindoura, já nesta vida, chamados a descansarem na esperança da glória eterna.

Deus também chama estes pecadores regenerados e justificados para participar da renovação da criação. Neste sentido, cada cristão tem um chamado especial para desempenhar na preparação para a renovação da criação. Este chamado também é conhecido nas Escrituras como o sacerdócio real dos cristãos. Todos os chamados em Cristo são chamados para desempenhar sua vocação como vocação sacerdotal. Neste sentido, então, todo chamado é um sacerdócio santo. A mãe, o pai, o filho, o engenheiro, o arquiteto, o motorista, o professor, o mestre de obras, o médico, o marceneiro, o músico, sendo cristãos, são chamados para viver para a glória de Deus, como sacerdócio santo.

A partir do conceito do sacerdócio de todos os cristãos, aprendemos que o Novo Testamento repudia totalmente qualquer tipo de clericalismo. Justamente porque todos os cristãos são sacerdotes. Não existe fundamento bíblico para a idéia de que alguns cristãos são sacerdotes e outros não. Todos os cristãos são sacerdotes, mas com diferentes funções. Neste sentido, Deus, graciosamente, chama alguns membros desta santa companhia sacerdotal para fazer aquilo que nem os anjos fazem: pregar o evangelho, as boas novas da livre graça de Deus, que justifica pecadores por causa da obra de Cristo na cruz. E estes, chamados para pregar, ensinar e cuidar do povo de Deus são sacerdotes tanto quanto todos os demais cristãos o são, mas, paradoxalmente, foram chamados para desempenhar a mais importante tarefa que existe: expor fielmente as Escrituras, edificar a igreja, preparando os cristãos para viver bem e apontando para estes os novos céus e nova terra.

Esse chamado é uma obra interna de Deus, que chama os servos da Palavra. E embora seja interno, o chamado para o ministério inevitavelmente virá acompanhado por um testemunho externo. Ou seja, aqueles chamados para a pregação da Palavra demonstrarão dons e aptidões para o exercício do ministério. Eles são equipados pelo Espírito para pastorear, evangelizar, pregar e ensinar – e frutos visíveis serão evidenciados por conta desse chamado interno. E será confirmado diante da igreja este chamado interno, por conta dos frutos externos da obra da graça que já aconteceu interiormente. Por isto, a necessidade de se testar aqueles que afirmam serem chamados: estes devem evidenciar ter dons ministeriais – pregando, evangelizando, confortando – antes mesmo de serem indicados para uma escola teológica. Até porque não é uma escola teológica que forma pastores. São pastores que formarão outros pastores, e esses servirão à igreja de Cristo.

E ainda que pastores sejam formados por outros pastores, o ensino teológico não pode ser desprezado. Escolas teológicas são importantes. Aqueles que foram chamados desejarão se aprimorar para desempenharem sua vocação, e buscarão preparo nessas escolas – enquanto são mentoreados por seus pastores. Neste sentido, uma escola teológica deve ser o berçário dos futuros pastores. E um bom critério para julgar a qualidade dessa escola é buscar respostas para algumas perguntas primordiais: Essa escola oferece uma boa formação teológica? Os alunos são firmados na fé ortodoxa? A piedade é desenvolvida e nutrida? São preparados para a titânica luta por corações e mentes que será travada por toda sua carreira ministerial? Reafirmando: são pastores que formarão outros pastores; será caminhando com pastores mais experientes que os futuros pastores aprenderão a pregar, ensinar, visitar, aconselhar e fazer bem tudo o mais que o chamado pastoral exige. Mais do que isto: serão pastores, servindo como modelos, que atrairão outros pastores para o ministério. Foi isto que William Perkins (1558-1602) ensinou em seu clássico The Art of Prophesying: “Se os ministros são poucos em número, então faça tudo o que puder para aumentar esse número. Quanto mais ministros, menor o fardo posto sobre cada ministro individualmente. Assim, que cada ministro em seu ensino e em sua conversação trabalhe de tal modo que honre o seu chamado, a fim de que outros possam ser atraídos a partilhar de seu amor pelo ministério”.

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