sexta-feira, 22 de maio de 2009

P-PROBLEMAS E P-PERSPECTIVAS DE UM P-PROTESTANTISMO P-PAU-BRASIL

Luiz Sayão


É preciso pensar o protestantismo pau-brasil! Protestantismo do país pentacampeão, pentasecular, pós-pentecostal, perigosamente problemático, praticamente pós-moderno! Para pensar, em prolegômenos, o protestantismo principiante do principal país português, precisamos proferir palavras propriamente planejadas, previamente preparadas, pesquisando os períodos do protestantismo pau-brasil: partindo-se do pioneiro e principiante, e prosseguindo até o presente e pós-moderno. Possivelmente poderemos prosseguir pincelando o painel polimorfo protestante! Podemos prosseguir? Perfeitamente!

O primeiro protestantismo é o principiante, o primogênito. Primaveril! Parece-me plácido, progressista, platônico e promissor. Produziu profusamente pastores, presbíteros, pregadores e professores. Padeceu perigosamente pelo poder dos padres, pois era protestantismo de persuasão! Porém, prosseguiu, proclamando a Palavra. Para os pesquisadores, pendia para a perspectiva pró-saxônica. Por isso, pasmem! Perdeu a possibilidade de preconizar uma perspectiva protestante pau-brasil. Praticou a perigosa polarização, protelando um protestantismo palpavelmente pentacampeão, um protestantismo perfeitamente pau-brasil. Podemos permanecer perplexos!

Pouco passou para o protestantismo preguiçoso projetar-se. Perfeito protetor do passado, o protestantismo preguiçoso priorizou a preservação do pretérito! Progressista e paleozóico, pôs em prisão a profecia! Pôs-se a prosseguir paulatinamente pelo pavimento pachorrento da postergação. “Podemos praticar posteriormente”, pensavam. Para que pressa? Pianissimamente, premiou os prelúdios e os poslúdios. Preconizou as prerrogativas de uma prepotência possivelmente putrefata! Pouco pôde prevalecer, pois permitiu a pluralização parcimoniosa do protestantismo principiante! Era pouco popular, porém pertencia ao “pequeno povo”. Ponderado, premeditado, predeterminado, parou! Praticamente parou! Parou por que? Petrificou! Petrificou para propalar o paternalismo, preservando o personalismo profundamente presente no povo pau-brasil. Pareceu-me parcialmente paranóico, permeado pelo pavor: pavor de prosseguir, pavor de permutar, pavor de prejudicar o passado! Puxa!

O protestantismo posterior é o protestantismo pró-pentecostes! Pôs os preteristas em polvorosa! Passou a possuir o perfil de protestantismo propagador! Pareceu prejudicar os plácidos e praticar a preteritoclastia! Passou a pender para uma perspectiva possivelmente pau-brasil. Porém, perseguiu o prazer e profetizou a proibição! Prosseguiu proclamando um protestantismo de Parusia. Passou a pregar pomposamente! Porém, passou a possuir a preferência dos pobres. Pôde pregar e profetizar propriamente para os pobres, os paupérrimos, os piores pervertidos e os pretos preteridos pelos poderosos perversos. Precipitadamente, preferiu o profeta e preteriu perigosamente o professor! Possivelmente por isso, passou a pulverizar. Pulverizou em partículas pequeninas, precipitando-se num perfil pavorosamente perturbador! Pôs-se a projetar pontífices próprios. Passou a prognosticar, promover prodígios, perseguir principados e potestades. Proporcionou e potencializou plenamente o perfil polimorfo do protestantismo presente.

Paralelamente, projetou-se o protestantismo possivelmente pró-proletariado. Propulsionado por perspectivas políticas, pendeu para um posicionamento predominante em parte do planeta que preconizava a polarização “proletariado-poderosos”. Posicionamente que pulula! Pareceu-me prioritariamente político. Passou a preterir o púlpito, e permutou-o pelo palanque. O pastor-pregador preferiu passar-se por político-prometedor. Perderam-se os papéis! Passaram a praticar a parcialidade, pixando os pecados perversos dos povos poderosos, pisoteando os principais da pirâmide do poder. Porém, politicamente predeterminados, passaram a prender a Palavra para poupar os perversos que possivelmente protegiam o proletariado e praticavam os próprios pecados dos poderosos. Pode? Perdidos, passaram a piscar passionalmente para o pensamento pós-cristão, para os profetas das psicologias prevenidas para com a Palavra e para uma pulverização pós-moderna e perdida do próprio pensamento. Perderam a perspectiva! Preteriram o porto da partida. Procuram o porto promissor, possivelmente perdidos em perspectivas e prazeres passageiros. Papelão! Que Papelão!

Prometendo progredir, pretendo pensar no perfil do protestantismo posterior, o protestantismo pós-pentecostal. Plenamente pós-moderno, é prenhe de problemas perigosíssimos. É perfeitamente paliativo. Passou a proporcionar aos pobres a perspectiva dos poderosos: a prata pode preencher e é prioridade. É o protestantismo do poder, da prosperidade e da psicose. O pastor-profeta passou a possuir o perfil papagueador-promotor. Passa-se por psicólogo, e péssimo psicólogo! Pulverizados na perscrutação da Palavra, porém perversamente projetados pela pragmática da prata, preferem preterir e pisar as palavras dos principais pensadores do próprio protestantismo. Os pós-pentecostais prescrevem práticas parvas e pueris! Proclamam perspectivas perdidas, pisoteando a precisão do pensar! Preconizam pensamentos paliativos! Parecem predeterminados a promover o perecimento pleno dos próprios pobres. Para os pesquisadores, é pretenso protestantismo! Prostituiu-se! Perdeu-se em promiscuidade! Pobre protestantismo! Pobre protestantismo! É preciso praticar o pranto!

Paremos com o pessimismo, pois o protestantismo é promissor, pujante e prevalecente. Precisamos pensar e praticar passionalmente o protestantismo parelhado com a Palavra. Para podermos prevalecer, precisamos ponderar e prosseguir. A primeira ponderação é a prioridade da Palavra. Pressuposto primordial! Precisamos pesquisar, perquirir e perscrutar a Palavra. Propulsionados pelo perscrutar persistente da Palavra do Pai poderemos perfeitamente prosseguir. Os preceitos da Palavra perfazem o próximo passo. Precisamos praticar os preceitos do Príncipe da Paz. Palavra e Prática prosseguem em par! Por fim, penso que precisamos priorizar a prece. Perscrutar e praticar a palavra prepara o profeta, o pregador, o pastor a proferir palavras para o Pai Perene. Praticar a prece profetiza o prevalecer perpétuo pelo poder do Pai.

Palavra, Preceito e Prece. Perfil perpétuo para o povo do Pai Perene e do Príncipe da Paz.

Para sempre permanece a Palavra … (Psalmus 119.89)

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sexta-feira, 6 de março de 2009

VINACC, o carnaval e a ética pública evangélica

No período de 22 a 24 de fevereiro tive o privilégio de falar no XI Encontro para a Consciência Cristã, em Campina Grande, na Paraíba. Este evento é promovido pela VINACC: Visão Nacional para a Consciência Cristã (http://www.conscienciacrista.org.br/). O que espanta, para quem participa do encontro pela primeira vez, é a amplitude do evento. Antes do Encontro, em começos de dezembro, por meio de um ministério chamado Projeto Jonas, cerca de 380 mil pessoas são visitadas, recebendo material evangelístico e convite para participar do Encontro. E durante o evento, que ocorreu de 18 a 24 de fevereiro, cerca de 50.000 pessoas participaram de pelo menos uma das programações oferecidas no Parque do Povo. E aproximadamente 10.000 crianças participaram de um evento paralelo, chamado Consciência Cristã Kids.

Durante as noites ocorrem os cultos. Os pregadores desses cultos foram: Rev. Hernandes Dias Lopes (1ª. Igreja Presbiteriana de Vitória/ES), Ron Boyd-MacMillan (Missão Portas Abertas), Pr. Paulo Solonca (1ª. Igreja Batista de Florianópolis/SC), Pr. Renato Vargens (Igreja Cristã da Aliança em Niterói/RJ), Pr. Virgínio de Carvalho (Assembléia de Deus em Aracaju/SE), Rev. Oswaldo Prado (SEPAL) e Rev. Antônio Carlos (Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca/RJ). O louvor ficou a cargo de Asaph Borba, Atilano Muradas, Armando Filho e André de Oliveira (o impagável Reverbério), entre outros. Para se dar uma dimensão do evento, no último culto havia cerca de 10.000 pessoas presentes na tenda principal, o Tabernáculo Bíblico. O prefeito em exercício de Campina Grande, José Luiz Júnior, esteve presente nesse dia, assistindo o culto até o fim.

Impressiona também as muitas opções de palestras oferecidas nas manhãs e tardes de domingo até terça nas centrais de palestras, stands confortáveis onde ocorriam reuniões com grupos menores. Ocorreram fóruns e encontros cobrindo uma ampla gama de temas teológicos, pastorais e éticos: 1º Seminário sobre o cristão e a saúde; 1º Encontro sobre os malefícios da pornografia para a sociedade; 2ª Conferência sobre missão integral; 5º Seminário de louvor e adoração; 4º Fórum para a família sadia; 1º Fórum sobre fé e ciência; 6º Encontro para a consciência missionária; 1º Encontro de pessoas que vivenciaram a homossexualidade; 9º Encontro para jovens e adolescentes; 1º Seminário para capacitação de professores de EBD; 1º Seminário sobre a realidade da igreja evangélica brasileira. Tive o privilégio de falar em dois encontros: no 5º Encontro cristão de teologia e filosofia, falei em três ocasiões, sobre a relação da fé cristã e política numa perspectiva evangélica, e no 2º Fórum para a capacitação de lideranças cristãs sobre questões éticas, falei em outras três ocasiões sobre ética e espiritualidade, quando ofereci um resumo da obra clássica de Jonathan Edwards, Religious Affections.

Também foram oferecidos os seguintes seminários apologéticos: Maria – de serva do Senhor à rainha dos céus; Síntese dos principais movimentos religiosos atuais; Esclarecendo os argumentos das Testemunhas de Yehoshuah e dos judaizantes; Existem semelhanças entre os jeovistas e sabatistas?; Conhecendo os argumentos do conjunto A Voz da Verdade e do Tabernáculo da Fé; O Novo Testamento foi influenciado pelas religiões e filosofias pagãs?; Ateísmo – a fé dos que não crêem em Deus; Por que não creio na astrologia?; Analisando a doutrina dos anjos e demônios; O deus dos muçulmanos é o mesmo Deus dos cristãos?; O que é gnosticismo?; Santo Daime – o culto do cipó; Deus e extraterrestres; O satanismo ontem e hoje; As heresias dos “profetas” da prosperidade; A singularidade de Cristo e do cristianismo; O liberalismo teológico e seus efeitos nocivos à fé cristã; A necessidade da defesa da fé cristã; Ser cristão – o que Cristo ensinou; Ser igreja – enfrentando a crise de identidade; Boas obras salvam?; O espiritismo é cristão?; Jesus Cristo: fato ou mito?; Por que se deve crer na verdade?.

No sábado, 23 de fevereiro, ocorreu o 1º Painel sobre políticas públicas, cobrindo assuntos como fé e política; a ameaça do estado totalitário e seu controle sobre as famílias e cidadãos; a nova ordem mundial e a pedagogia queer; a influência sociocultural da pornografia; a mulher, o aborto e o controle demográfico. Este encontro continuou à tarde, com os participantes do painel respondendo às perguntas feitas pelos participantes do Painel e pelos ouvintes do programa Consciência Cristã em Foco, transmitido pela Rádio Cariri AM – 1160 Khz.

Ficou evidente pelos temas das palestras a ênfase naquilo que é central ao cristianismo histórico e às principais ameaças que este sofre. Por isso, pelo menos para mim, poucas vezes vi a famosa frase atribuída a Richard Baxter ser tão verdadeira: “Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade”. Havia preletores de diversas denominações: Assembléia de Deus, batistas, Brasil para Cristo, congregacionais, metodistas, presbiterianos e de comunidades independentes. Tive o privilégio de fazer as refeições com a maioria dos preletores, e todos eles encarnaram o tema do evento, uma visão cristocêntrica, enfatizando os pontos centrais da fé cristã histórica. Aliás, preciso destacar o privilégio de ter sido convidado para jantar na segunda-feira à noite com cerca de trinta preciosos irmãos da Igreja Presbiteriana de Campina Grande, e ter conhecido o Rev. Jorge Issao Noda, respeitado ministro da IPB, e um dos apoiadores da VINACC. Esta é uma das maravilhas do evangelho: reunir pessoas que não se conhecem em comunhão, como se fossem antigos amigos.

Sou extremamente grato por participar de tal evento, e agradeço ao convite que me foi feito pelo presidente da VINACC, Pr. Euder Faber, da Igreja Brasil para Cristo, para estar ali naqueles dias. Aliás, preciso destacar o cuidado e esmero destes irmãos com todo o evento: segurança, alimentação, mídia – toda a infra-estrutura do evento é preparada com capricho e cuidado. Os palestrantes dos seminários e fóruns tinham a companhia constante de irmãos muito bem preparados, prontos para apoiar e ajudar, em qualquer necessidade. O serviço prestado por eles é primoroso.

O espantoso é que em Campina Grande o carnaval não é feriado (nem mesmo a terça-feira). O evento da VINACC não só suplanta em impacto os encontros que grupos religiosos não-cristãos fazem na região, mas o próprio desfile de carnaval. Isso é um contraste gritante com o que ocorre na região sudeste na mesma época. O que antes estava circunscrito a alguns grupos neo-carismáticos vai ganhando adeptos entre aqueles pertencentes às igrejas históricas: participar dos infames desfiles de carnaval. A suposta argumentação bíblica para justificar tal prática é pueril. Não é digna de resposta. Não há argumento bíblico possível que apóie tal prática. O que estes grupos fazem é respaldar uma festa deprimente, onde a promiscuidade e outros vícios são celebrados. E os resultados são risíveis. Supor que eventuais “decisões” validem tal prática é assumir desconhecimento de que Deus exige fé em Cristo e arrependimento de pecadores. E tal conversão é seguida por “frutos dignos de arrependimento” (Lc 3.18). Estes fariam bem em ler com atenção o que o apóstolo aos gentios escreveu em Efésios 4.17-5.18 (NVI):

17Assim, eu lhes digo, e no Senhor insisto, que não vivam mais como os gentios, que vivem na inutilidade dos seus pensamentos. 18Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância em que estão, devido ao endurecimento do seu coração. 19Tendo perdido toda a sensibilidade, eles se entregaram à depravação, cometendo com avidez toda espécie de impureza.

20Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. 21De fato, vocês ouviram falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. 22Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, 23a serem renovados no modo de pensar e a 24revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. (…)

30Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual vocês foram selados para o dia da redenção. (…)

1Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados, 2e vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus. 3Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza e de cobiça; pois essas coisas não são próprias para os santos. 4Não haja obscenidade, nem conversas tolas, nem gracejos imorais, que são inconvenientes, mas, ao invés disso, ações de graças. 5Porque vocês podem estar certos disto: nenhum imoral, ou impuro, ou ganancioso, que é idólatra, tem herança no Reino de Cristo e de Deus. 6Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência. 7Portanto, não participem com eles dessas coisas.

8Porque outrora vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz, 9pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade; 10e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor. 11Não participem das obras infrutíferas das trevas; antes, exponham-nas à luz. 12Porque aquilo que eles fazem em oculto, até mencionar é vergonhoso. 13Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, pois a luz torna visíveis todas as coisas. 14Por isso é que foi dito:

“Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti”.

15Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, 16aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. 17Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor. 18Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito.

O texto é claro. As obras da luz não se conciliam com as obras das trevas. Triste é que quanto mais a igreja quer se parecer com a cultura ao seu redor, mais a igreja deixa de ser igreja. À medida que uma comunidade cristã começa a imitar os piores vícios culturais, no anseio de parecer agradável e moderna àqueles de fora dela, ela deixa de ser igreja. No fim, adulada por pecadores, é incapaz de trazê-los a Cristo. Por isso, aqueles que querem realmente agradar a Deus e dar bom testemunho aos de fora devem, na força do Espírito, e por meio da Palavra, se portar de tal forma que Deus seja glorificado por um alto padrão de santidade no casamento, na família, no trabalho, nos estudos, na política, nas artes e nos vários relacionamentos que temos em nossa caminhada diária. E o aviso das Escrituras permanece – somente por meio da loucura da pregação pecadores serão salvos (1Co 1.21-24 NVI):

21Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. 22Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; 23nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, 24mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.

O mais triste é que a descaracterização da igreja evangélica nos grandes centros urbanos caminha junto com o aumento da violência, da barbárie, da corrupção, do sucateamento da educação e da saúde e do aumento da desigualdade social. E a igreja permanece letárgica, incapaz de se mobilizar. A igreja perdeu seu chamado à santidade, e tornou-se incapaz de reformar a sociedade. Por isso, o esforço por uma ética pública evangélica é praticamente inexistente. Tornamo-nos incapazes de protestar. No Rio de Janeiro, entre 2000 e 2006, ocorreram 53.454 assassinatos. Em 29 de novembro de 2005 ocorreu o impensável no Rio de Janeiro. Cinco pessoas, inclusive uma criança de um ano e um mês de idade, juntamente com sua mãe, morreram queimadas dentro de um ônibus, na Penha, subúrbio ao norte daquela cidade. Estes bárbaros assassinatos elevaram a violência a um novo e assustador patamar naquele município. Outras 14 pessoas ficaram feridas. Junto com mais dois amigos, redigi uma carta, para enviar a toda a liderança política do Estado e aos meios de comunicação. Cerca de noventa pessoas assinaram a carta. Em 2007 foram registrados 10.942 homicídios no Rio de Janeiro. E as previsões para 2009 são pavorosas. Em janeiro de 2007 um grupo de evangélicos iniciou um movimento chamado Rio de Paz. Qual foi a adesão das igrejas daquela cidade? Ínfima. Então, quando a igreja está tão preocupada em se tornar atraente aos de fora, que perde de vista seu chamado à santidade, ela não só trai seu chamado, mas se torna irrelevante.

O que aconteceu em Campina Grande deve nos levar a glorificar a Deus, servindo como modelo para o restante da igreja em nosso país. Clamemos para que Ele derrame seu Espírito sobre a igreja evangélica brasileira, para que esta seja purificada e avivada. Somente por meio desta ação soberana de Deus, não nos envergonharemos do evangelho, que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16), e testemunharemos tanto em nossa vida pessoal quanto na esfera pública, trazendo esta grande nação para debaixo do comando de Deus: “Porque o SENHOR é o nosso juiz, o SENHOR é o nosso legislador, o SENHOR é o nosso Rei; ele nos salvará” (Is 33.22). Somente por meio de um avivamento, a igreja permanecerá igreja, sem trair seu chamado à santidade, confessando Cristo como único e absoluto Senhor (Mt 10.32 cf. Rm 10.9). Que escutemos Dietrich Bonhoeffer: “[A igreja] não nos será tomada — seu nome é decisão, seu nome é o discernimento dos espíritos… Venha… você que foi abandonado, você que perdeu a Igreja; retornemos às Sagradas Escrituras, busquemos juntos a Igreja… Pois aqueles momentos, quando a compreensão humana se desintegra, podem muito bem ser uma grande oportunidade de edificação… Igreja, permaneça igreja! … confesse, confesse, confesse”.

[Para uma resposta ampla e detalhada do comprometimento da igreja com a cultura secular, recomendo o ótimo livro de John MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho. O que eu gosto neste livro não é apenas a lógica passional do autor em defender a necessária santidade da comunidade cristã; mas também a admiração diante do discernimento espiritual do grande pregador batista Charles Spurgeon, que em meados do século xix anteviu claramente a crise espiritual e eclesial que vivemos hoje.]

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