8ª Conferência Fiel em Portugal
No período de 3 a 6 de Novembro de 2008 aconteceu a 8ª Conferência FIEL para pastores e líderes em Portugal. O tema da conferência foi “Pregação poderosa: fidelidade e ousadia para o crescimento da igreja”, baseado em 2Coríntios 10.4: “As armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus”.
Do Brasil, foram quatro membros da equipe da Editora Fiel: Tiago Santos, Edvânio Silva, Diego Baptista e eu – Franklin. Lá nos encontramos com Nicolas Felix, que estuda na França e ajudou na tradução das pregações em inglês e francês. Chegamos a Portugal no sábado, 1º. de novembro, e passeamos um pouco por Lisboa. A cidade é impressionante, pela beleza, limpeza, segurança e mistura entre o antigo e o moderno. O Padrão dos Descobrimentos, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Convento do Carmo e o Castelo de São Jorge são belíssimos. No domingo, eu preguei na Igreja Evangélica do Seixal, que tem quarenta e sete anos de existência. Na ocasião fiz um resumo do argumento central da epístola de Paulo aos Gálatas, sob o tema “Deus salva pecadores pela graça e muda suas vidas”. Esta igreja é pastoreada por Paulo Nunes. Uma grata surpresa foi descobrir que o pai de Paulo, Mário Pedro, foi aluno de Russell Shedd no começo da década de 1960, no antigo Seminário Baptista de Leiria. Foi tocante conversar sobre o impacto do ministério desse servo de Deus na vida daquelas pessoas. À noite, Tiago pregou na Igreja Evangélica do Alto do Moinho, pastoreada por José Henrique, e Edvânio pregou na Igreja Congregacional de Chelas, um distrito de Lisboa. Rick Denham chegou terça-feira pela manhã, vindo dos Estados Unidos.
A conferência começou na segunda-feira à noite e terminou na quinta-feira à tarde. Ela é realizada no Acampamento Baptista, em Água de Madeiros. A cidade onde se localiza o Acampamento fica entre Lisboa e Porto, na bonita região de Leiria. Nessa mesma área localizam-se pontos turísticos lindíssimos como o Mosteiro da Batalha, a vila de Óbidos, as freguesias de Nazaré e São Pedro de Moel. Neste ano participaram cerca de 70 pessoas, entre pastores, presbíteros, diáconos, esposas, visitantes e membros da equipe da editora. Quem dirigiu os cultos foi João Custódio Nunes, um dos preletores da 24ª. Conferência Fiel no Brasil, e pastor da Igreja Evangélica Baptista de Tomar e da Igreja Evangélica Baptista de Ortiga, ambas em Portugal.
Neste ano, os preletores da conferência em Portugal foram:
Jean-Claude Souillot, pastor de uma congregação batista em Chalon, na França, responsável pelas edições da Evangelical Press no idioma francês e responsável pelo trabalho missionário dessa editora na África. Ele falou quatro vezes, e os temas de suas mensagens foram: “De onde tudo vem” (1Co 2.2), “A verdadeira revolução” (At 17.6-7), “A nossa ida até vós” (1Ts 1.9) e “Mas alegrai-vos” (Lc 10.20). Foi um grande privilégio para todos os presentes ouvir o evangelho pregado com tamanha simplicidade no idioma de João Calvino!
Bob Dickie, pastor da Igreja Batista Bereana, em Michigan, nos Estados Unidos, e que foi um dos preletores da 23ª. Conferência Fiel no Brasil, falou sobre “Os pilares da fé”. Em quatro mensagens, ele enfatizou a centralidade das doutrinas da graça, a atualidade da doutrina da justificação pela graça fé, a adoração dirigida pelas Escrituras e o apego à esperança escatológica. Ele é autor de um livro publicado pela editora Fiel, e lançado no ano passado, O que a Bíblia ensina sobre adoração.
Falei em quatro ocasiões. Em três delas, explorei a sabedoria homilética de Agostinho, Calvino e William Perkins. E no último dia expus o texto de Romanos 1.1-7, cuja idéia central é o chamado, o conteúdo e o resultado da pregação do evangelho. Na tarde de quinta-feira, a pedido de alguns irmãos, falei sobre três diferentes métodos de pregação expositiva e a necessidade de aplicação do texto bíblico às vidas dos cristãos. Uma semana depois, na quarta-feira à noite, preguei na 1ª. Igreja Baptista de Lisboa, fundada há setenta e nove anos, e pastoreada por Celestino Torres de Oliveira. Na ocasião, expus Romanos 8.29-30, enfatizando que todas as graças que recebemos provêm de Deus.
Como no Brasil, a chegada da fé evangélica em Portugal é relativamente recente. Ainda assim, na literatura portuguesa tem-se uma antiga citação a Martinho Lutero, datada de 29 de agosto de 1520. Ela se encontra num relatório enviado de Roma para Lisboa, da parte do representante de Portugal na Santa Sé, D. Diogo da Silva:
Contra aquele frade de Alemanha Martym Luther, que la faz tantas reuoltas, fez aguora o papa humma bulla de que se ele muyto ry, segundo dizem: é esta humma cousa que tyra o somno porque todo aquele pouo pede concílio e reformação.
Tempos depois, apareceram outros escritos portugueses mencionando a reforma teológica iniciada na Alemanha. Entre os que se opuseram a reforma, se encontram textos de João de Barros, dos irmãos André e Garcia de Resende e Luís Vaz de Camões. Mas vários dos professores do Real Colégio das Artes, em Coimbra, simpatizavam com o luteranismo. Conta-se que o reitor André de Gouveia, ao falecer em 9 de junho de 1548, foi perguntado, na hora da morte, se queria um confessor, a que respondeu: Soli Deo – “a Deus somente”. Esta resposta foi considerada uma confirmação do espírito protestante de André de Gouveia e das tendências reformistas dele e de alguns dos professores que trouxera da França, e que acabaram presos pela Inquisição: os portugueses Diogo de Teive e João da Costa e o escocês George Buchanan. Outros dos que demonstraram simpatia pela fé evangélica foram Gil Vicente, Damião de Góis e Manuel Travassos.
Este último, Manuel Travassos, tem sido considerado o primeiro luterano português. Ele era bacharel em cânones pela Universidade de Coimbra, e foi condenado pela Inquisição em 11 de março de 1571. Após isso, se efetivou a prisão do famoso historiador Damião de Góis, o qual nunca se confessou luterano, apesar de ter conhecido Lutero e Felipe Melanchthon, quando esteve em Wittenberg, na Alemanha, em abril de 1531. Em sua abjuração, Góis tristemente escreveu:
Damião de Goes, cristão-velho, morador nesta cidade de Lisboa, perante vós, Reverendos Senhores Inquisidores, contra a herética pravidade e apostasia, juro nestes Santos Evangelhos, em que tenho minhas mãos, que, de minha própria e livre vontade, anatematizo e aparto de mim toda a espécie de heresia e apostasia que for ou se levantar contra a santa fé católica e Sé Apostólica, especialmente estas em que caí, que tenho confessado ante Vossas Mercês, que aqui agora, em minha sentença, me foram lidas, as quais aqui hei por repetidas e declaradas. E juro de sempre ter e guardar a santa fé católica que tem e ensina a Santa Madre Igreja de Roma e que serei sempre obediente ao nosso mui Santo Padre Papa Gregório décimo terceiro, ora presidente na Igreja de Deus, e a seus sucessores. E confesso que todos os que contra esta fé católica vierem são dignos de condenação.
Góis foi preso, processado e transferido para o Mosteiro da Batalha, onde foi condenado a cumprir cárcere perpétuo. Parece que os inquisidores estavam convencidos de suas conexões com o luteranismo. Libertado pouco depois, morreu em sua casa, em Alenquer, em 30 de janeiro de 1574 – aparentemente assassinado.
Deve-se mencionar que graças ao português João Ferreira de Almeida, pastor e missionário da Igreja Reformada Holandesa no Ceilão (atual Sri Lanka), na Índia, em Málaca e na Batávia (atual Jacarta, capital da Indonésia), o mundo de língua portuguesa ganhou a primeira tradução da Bíblia no idioma de Camões. E desde 1633 havia uma igreja evangélica composta de portugueses na Batávia, sendo que João Ferreira de Almeida foi pastor dessa comunidade até sua morte, em 1691.
Havia igrejas evangélicas para cidadãos estrangeiros em Portugal, como a Igreja Evangélica Alemã de Lisboa (Kirchengemeinde Lissabon), fundada em 1761. Mas, como no Brasil, a fé evangélica chegou a esse país em meados do século xix e começo do século xx, levada por missionários estrangeiros, especialmente ingleses e americanos. Assim surgiram as igrejas presbiterianas, metodistas, congregacionais, batistas e assembléias de Deus naquele país – e rapidamente foram ordenados os primeiros pastores portugueses, ainda em meados do século xix. Mas, eventuais semelhanças com o movimento evangélico brasileiro param aqui. Enquanto no Brasil, segundo estatísticas mais realistas, o número de evangélicos se encontra em torno de 11% da população, em Portugal os evangélicos chegam a 1% da população. Só que isso não livra os evangélicos portugueses dos mesmos problemas enfrentados pelos evangélicos no Brasil. Grupos religiosos como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Maná, são incômoda presença na sociedade portuguesa. Além da ameaça desses grupos que parecem ser uma nova edição da antiga heresia gnóstica, a igreja evangélica portuguesa enfrenta o secularismo pós-moderno, caracterizado por profunda indiferença ou desprezo pela fé cristã. Os que se identificam como ateus ou agnósticos totalizam algo em torno de 4 a 9% da população. Os católicos, segundo o senso de 2001, chegam a 84,5% da população total.
Devemos lembrar dos irmãos portugueses em nossas orações, intercedendo a Deus por pelo menos três áreas. Devemos suplicar a graça de Deus por conta do testemunho ambíguo dos cristãos brasileiros naquele país. Por um lado, os evangélicos portugueses são gratos pelo serviço que os brasileiros prestam àquela igreja. Eles estão sedentos por auxílio, cooperação e encorajamento dos irmãos brasileiros. Eles usam com avidez a literatura estrangeira traduzida aqui, mas também a literatura produzida por autores daqui. E muitos brasileiros tem dado bom testemunho naquele país. Por outro lado, vários brasileiros acabam reproduzindo em Portugal muitos dos pecados que temos cometido aqui. Foi chocante ver, ao lado de uma igreja evangélica quase centenária em Lisboa, uma igreja pentecostal fundada há pouco tempo por um brasileiro, com a distância de menos de 100 metros separando-as! A ideologia da prosperidade, o liberalismo teológico e a ausência de parâmetros éticos cristãos andando lado a lado com a moral do jeitinho – tudo isso tem chegado lá com os imigrantes que tentam a sorte no Velho Mundo.
Também devemos orar pelos pastores portugueses. Foi uma honra conhecer vários deles e poder pregar em duas igrejas evangélicas em Portugal. Eles demonstram grande amor por Cristo e firme compromisso em edificar as igrejas sob suas responsabilidades, mesmo num contexto tão difícil. Todos os pastores com quem conversei demonstram ser homens dedicados, piedosos, de vasta cultura, conhecedores da Bíblia, e apreciadores da rica e bonita história de Portugal. Homens que amam a Deus e ao povo. Devemos lembrar desses pastores em oração, para que as últimas palavras do apóstolo sejam reais em suas vidas (2Tm 4.1-5):
Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.
Por último, devemos suplicar que Deus levante jovens brasileiros, totalmente dedicados à glória de Cristo, para ir ao Velho Mundo. Portugal e o restante da Europa se tornaram um vasto campo missionário. O desprezo aberto pelo cristianismo se tornou moda, especialmente na França, mas com reflexo em outros países. É triste andar por alguns países da Europa e notar que o cristianismo se tornou mera relíquia do passado. Quantas igrejas centenárias naquele continente se tornaram meras peças decorativas ou locais de visitação! Então, oremos para que Deus chame os melhores jovens em nossas igrejas para se dirigirem ao Velho Mundo, levando a boa notícia de que Deus salva pecadores por causa do sacrifício de Cristo na cruz.
As mensagens da conferência já estão disponíveis para download no site da Editora Fiel.

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Chegando ao aeroporto de Maputo, na capital de Moçambique, saímos ansiosamente pelas escadas do avião e caminhamos alguns metros para a área de desembarque. A noite estava bem fria, já que essa é a época do inverno, no hemisfério sul. O aeroporto de Maputo é bem simples, rudimentar até. Todos nós esperávamos, a essa altura, saber o que tinha acontecido com nossa bagagem. Não foi surpresa quando a última das malas saiu de uma antiquada esteira de bagagens – e nossas malas não estavam lá. Eu perguntei para uma mulher nas proximidades sobre onde poderíamos reclamar nossas malas, que não apareceram. Ela apontou-nos uma direção, e murmurou algo em português, mas num sotaque tão carregado que não entendi nada. Ao sairmos da alfândega sem a nossa bagagem, ficamos contentes ao encontrar Karl Peterson, um dos dois missionários responsáveis pela conferência Fiel em Nampula, e que mora na África do Sul. Pastor Gilson e Kevin foram para o hotel, descansar um pouco, e eu e Peterson fomos procurar nossas malas. Felizmente, descobrimos que as malas chegaram num vôo anterior, e terminaram retidas na alfândega. O único problema foi que, nesse momento, os serviços daquela repartição estavam fechados. Como o nosso vôo para Nampula estava marcado para o dia seguinte de madrugada, era necessário resolver o problema o mais rápido possível. Depois de esperar várias horas no aeroporto, finalmente encontramos o responsável pela alfândega, que havia abandonado seu posto. Ao chegar à alfândega, o agente foi repreendido por seu superior, por ter abandonado a alfândega. Ele rapidamente liberou toda nossa bagagem, sem nem mesmo cobrar os impostos sobre toda a literatura que estávamos trazendo – e não era pouca coisa: as malas pareciam transbordar de livros! O homem queria, inclusive, uma carta nossa dizendo que fomos bem tratados, com medo de perder o emprego! Mais uma vez, foi espantoso ver o Senhor usar todas estas circunstâncias para revelar seu cuidado providencial sobre nós. Ficamos muito agradecidos por isso.
Depois de um magnífico jantar de boas-vindas, corremos todos para a cama, para nos preparar para os longos dias na conferência. O local escolhido para a conferência é um lugar chamado Sociedade Internacional de Lingüística (SIL), um centro de idiomas. É ligada à Wycliff Bible Translators (WBT), que tem abrigado bem o evento. Ao chegar lá, na manhã seguinte, recebi a tarefa de tirar as fotos dos pastores adotados pelo Projeto Biblioteca do Pastor, assim como fotografar todos os participantes e detalhes da conferência. Foi uma ótima oportunidade para poder conversar pessoalmente com cada pessoa ali, e transmitir a eles nossos cumprimentos em nome da editora Fiel.
enquanto o Pr. Ronald Kalafungwa, pastor batista em Zâmbia, falou sobre o viver cristão, baseado em Efésios 4-6. Ambos os pregadores foram muito bem recebidos e o Senhor os usou, para suprir as muitas necessidades espirituais dos pastores e esposas presentes ali. Fomos muito encorajados ao ver e ouvir suas reações à pregação da Palavra. Também é interessante notar que mais de 30% dos participantes ficaram mais uma semana ali, para um curso adicional, que é realizado para poder ajudar a preparar os pastores de forma mais interativa e pessoal. Pr. Gilson ensinou pregação expositiva para cerca de 40 alunos. Já o Dr. Woodrow, que ano passado teve de cancelar seu curso por falta de interesse, teve uma turma de 30 alunos estudando teologia sistemática. O relato sobre a experiência de viagem de Pr. Gilson pode ser lido aqui.
A livraria é sempre um ponto alto da conferência, sendo o único local para se comprar livros cristãos na cidade de Nampula. Quando a conferência não está ocorrendo, uma pequena livraria é mantida no pequeno centro comercial da cidade, sendo um lugar onde as pessoas podem entrar e ler bons livros, bem como comprá-los a preços subsidiados. Fomos muito encorajados, ao ver que cerca de 780 livros foram vendidos na conferência. Junto com isso, fomos capazes de oferecer aos pastores o livreto de John Piper, “Para sua alegria”, e um pequeno manual de teologia sistemática.
