Feridos de Morte

…“Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou em guardar o gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já e põe-te à mesa? E que, antes, não lhe diga: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois, comerás tu e beberás? Porventura, terá de agradecer ao servo porque este fez o que lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer”. (O Senhor Jesus, registrado em Lucas 17.7-10)

Feridos de Morte Hoje deveria ser “o dia do Índio” também, sabia? Deveria ser mesmo “mais um dia de oração e ação pelos índios brasileiros”. E deveríamos nos lembrar mais dessa pobre gente brasileira, esquecida e abandonada; entregue ao álcool, à prostituição, às doenças, às múltiplas desgraças que, como cartas infalíveis de cobranças sempre encontram o endereço das muitas aldeias brasileiras. De uma índia guarani-kaoiwá (lê-se, caiuá) ouvi certa vez: “Se não fosse a Igreja Presbiteriana do Brasil, há muito a nossa etnia já teria desaparecido!” e isto que poderia parecer um elogio e uma manifestação de gratidão para com a nossa denominação, não me fez sorrir. Muito pelo contrário, fez-me lembrar do que ouvimos como igreja na mensagem do Domingo passado, que o presb. Azor Ferreira nos trouxe: a lembrança do fato de que não fizemos mais do que a nossa obrigação quando saímos para evangelizar e levar as boas novas da salvação (Lc 17.7-10). E ainda nos despertou um profundo reconhecimento como denominação: e fizemos mesmo muito pouco.

Nossa Missão está lá na terra dos Caiuás, faz tempo. Tem hospital, escola e lhes leva a fé em Jesus Cristo. Fez e faz muita coisa por esta gente sofrida e esquecida, largada pelos que deveriam proteger e apoiar e nada fazem de verdade e com boa, regular e séria continuidade. Mas, a nossa missão como Igreja local; como Igreja Presbiteriana do Jardim Satélite, também pouco chegou lá entre os cauiás. Talvez em forma de uma oferta financeira ou outra. E só.

Confesso que coro de vergonha perto de outro presbítero, irmão querido e amigo lá de Itatinga-SP, Clodoaldo Furlan, que também não faz mais do que a sua obrigação quando age procurando atender essa gente caiuá. Faz sua obrigação, e faz bonito: lidera grupos de apoio regularmente àqueles índios. Neste último final de semana conversávamos ele e eu e enquanto ouvia os seus planos, também via em seus olhos o brilho e a alegria daqueles que obedecem e servem ao Senhor, servindo aos cauiás. Pela terceira ou quarta vez, nem sei quantas, ele está indo às aldeias caiuás levar apoio de fato. Com ônibus de integrantes das igrejas da sua região e com dois caminhões carregados de mantimentos, vestes, medicamentos, etc, Clodoaldo e sua gente estão fazendo a sua parte ali, e nós, infelizmente, ainda não.

Eu já estive em Dourados-MS (região dos caiuás) algumas vezes. Vi de perto e nas ruas daquela cidade índios maltrapilhos, fedorentos e bêbados (de ambos os sexos), existindo em miséria e ‘zanzando por ’ (não era nem mais ‘andando por aí’. Já baixara disso). Lamentei ver gente assim. Gente. Gente que é índia (e se fosse você?). A foto que ilustra este texto, infelizmente é de ‘mais um dia normal de índio caiuá’, em Dourados.

Leia a seguir o relato da ex-ministra e ex-candidata à presidência da República, Marina Silva, veiculado no JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO sobre a situação dos caiuás. Pense no rosto do menininho índio que vai ser mencionado, de apenas 9 anos. Tente ‘visualizar’ o seu rostinho. Mas já vou lhe avisando: estas próximas linhas poderão lhe levar às lágrimas. Você poderá chorar. Eu espero que se isto acontecer, que também vá além e que você se lembre que poderá ORAR por eles. E poderá agir também.

E eu tenho certeza: meus amigos presbíteros, Clodoaldo e Azor ficarão muito felizes em receber um contato seu, perguntando como se pode entrar nesta ação da nossa obrigação –  minha, sua, deles; de todos os servos de Cristo. Eles, os caiuás precisam urgentemente que nós oremos e ajamos!

“Feridos de morte” era o título da matéria da Folha de 16/09/2011, ou seja, de não muitos dias atrás. E eles (os cauiás) continuam assim e continuam por lá. Feridos.

…”Ônibus escolar lotado de crianças e adolescentes é atacado com coquetel molotov. Idoso de 72 anos morre após receber golpes na cabeça e os agressores são absolvidos de homicídio. Criança de 9 anos comete suicídio. Outra, de apenas três, morre em consequência de desnutrição -no país que é um dos celeiros do mundo- e a atenção médica só chega na hora da morte. Homens armados atacam 125 famílias, queimam suas casas feitas de lona e ferem-nos gravemente. Este último caso, longe de ser o primeiro, mas ocorrido no início deste mês, está sendo tratado pelo Ministério Público Federal como um genocídio. Tudo isso aconteceu num único Estado, Mato Grosso do Sul. E todas as vítimas da violência foram índios da etnia guarani-kaiowá.

Eis a terrível rotina de desespero e impotência sofrida por essa população, em total abandono em pleno coração do Brasil. Se fatos como os relatados tivessem acontecido com não índios, provocariam comoção nacional, chegariam ao Congresso e gerariam algum plano governamental de urgência. Mas as vítimas em questão não têm vez nem voz, não geram muitos votos.

São só índios, como muitos brasileiros ainda os veem. Suas desgraças chegaram a virar notícia em alguns jornais. Mas logo foram esquecidas. A trágica realidade dos guarani-kaiowá tem piorado, até porque é tratada com incrível distanciamento pelos governos e pela sociedade. Centenas vivem em verdadeiros campos de refugiados, em reservas pequenas demais para o tamanho de sua população.

Outras centenas, entre as cercas das fazendas e à beira das estradas, vistos como resquícios indesejados de um Brasil do passado. São tratados como estrangeiros, num verdadeiro apartheid social. Relatório da Survival Internacional para o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da ONU 2010, com dados de 2005, aponta que 90% deles sobrevivem com cestas básicas. A expectativa de vida é de cerca de 45 anos e o índice de suicício entre eles é 19 vezes mais alto que o nacional.

Os indígenas não estão sendo beneficiados pelo impressionante desenvolvimento do país. A eles deve ser estendido o mesmo empenho que retirou tantos milhões de brasileiros da miséria. E como? Fazendo-os abandonar sua condição de indígenas? Não. Provendo-lhes terras e condições para suprir sua própria cultura e existência. Terras, há. Riqueza, também. Governo suficientemente capaz, também. O que falta? Empenho? Convicção? Falta sentido de urgência, compromisso ético e político para estender a eles os clamores por direitos humanos? Ficará vivo algum dos guarani-kaiowá para testemunhar o Brasil potência que se erguerá sobre o fim do seu mundo?”

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