Carta a um Jovem Pastor Reformado: Cuidado com a Maledicência

Alberto Costa

(A carta abaixo é para um personagem fictício – embora baseada em fatos muito comuns entre pastores e seminaristas nos dias de hoje).

Caro Simão,

Carta a um Jovem Pastor ReformadoRecebi o email em que você critica aquele famoso pregador britânico. Lá você disse que ele compromete a fé da reforma, por causa de uma mensagem que ele pregou há vários anos, em que, num dado momento, ele expressa sua posição sobre a liturgia cristã e o uso da música no culto público. Notei também que você não aprecia muito o modo como ele se veste e que o fato dele haver chamado aquele outro pregador, de tendências contemporanistas, para pregar em sua igreja faz dele, definitivamente, alguém que rompeu com a fé da reforma. Você o chama de neo-calvinista e diz que falta-lhe a solidez bíblica de homens como Calvino, Lutero, Owen, Baxter, Edwards, Hodge, Kuyper, entre outros.  Diz que sua contribuição fica empalidecida por causa de algumas dessas posições suas e que, nossos pais no passado, contribuíram muito mais para o bem da ortodoxia cristã.

Bem meu irmão, visto que você me escreveu sobre o assunto – e como você tem usado as redes sociais como facebook, twitter e o blog para expressar suas críticas, senti a necessidade de orar a respeito de seus textos e preparar-lhe esta resposta. Peço até desculpas se você se sentir ofendido por algo, pois, como diz minha mulher, estou ficando um tanto rabugento com a idade.

Minha preocupação com assuntos como esses sendo tratados em listas de discussão na internet, em blogs, facebook e outras redes sociais não é, muitas vezes, com o mérito a respeito da contribuição desse ou daquele, pelo contrário. Preocupa-me mais o fato de termos um problema ético.

Sabe, na academia, talvez possamos dar-nos o direito de acusar de erro esse ou aquele autor, à distância – nesse caso, é exigido que oponhamos argumentos a pontos específicos e os documentemos e publiquemos para dar oportunidade à tréplica. Dizer que um argumento não convence implica, por honestidade intelectual, apresentar um argumento de melhor qualidade.

É o mínimo que devemos no ambiente externo à academia. Dizer "fulano está errado" ou "a contribuição desse ou daquele está sendo sobrevalorizada", sem oferecer uma discussão circunstanciada e embasada de pontos específicos, com o propósito de ensinar quem carece de ensino ou de corrigir quem carece de correção, não constitui um serviço prestado às igrejas, em geral, e aos discípulos, em particular, e fica muito próximo de "partidarismo e maledicência" (no ambiente acadêmico, os nomes seriam outros, com mais latim,  ex isso, ex aquilo). E temos (eu também e não poucas vezes, no passado) feito isso amiúde.

Estou chamando a atenção para esse ponto, meu irmão, por dois motivos:

  • Protege-nos de nos deixarmos levar por tentações típicas não só (mas também e com muitas evidências) do movimento reformado: idealizar movimentos e autores do passado distante e desenvolver uma incapacidade notável de manter diálogo respeitoso com nossos contemporâneos e cooperação com aqueles mais próximos de nós. Motivo: é muito mais fácil ver os defeitos dos que estão mais próximos e achar que, em comparação, os antigos eram, na pior das hipóteses, um ideal buscável; duvido que fôssemos tão positivos assim em relação a Owen, ou Baxter, por exemplo, se fôssemos seus vizinhos de quarteirão ou se fôssemos pastores de alguma igreja na cidade vizinha à dele, na época dele;
  • Incentiva-nos a ser propositivos: em vez de ficarmos dizendo o que achamos uns dos outros deveríamos expor o nosso ponto, Bíblia aberta e exposta, de modo que pudéssemos ser julgados por tantos "bereanos" quantos haja em nosso meio, examinando as Escrituras para ver se não estamos "pisando na bola".

É algo bem comum lermos ou ouvirmos comentários que diminuem o valor desse ou daquele irmão  (e até o acusam de erro) sem ser comum, frequente ou, mesmo, sem acontecer de jeito nenhum, uma exposição do ponto, com começo, meio e fim, que possa ser útil a quem está aprendendo. Um comentário como o que você fez a respeito daquele famoso pregador – e todos nós já fizemos em algum momento a respeito de alguém – não expõe o erro com argumento escriturístico, não ensina a verdade com argumento escriturístico, não constrói coisa alguma, exceto uma predisposição negativa a respeito de alguém que está, a duras penas, como todos nós, tentando realizar o ministério em meio a todo tipo de contradição, limitação intelectual, tentação e ambiente de luta espiritual. Se acusar aquele irmão pudesse edificar uma única congregação de 30 cristãos, eu mesmo poderia fazê-lo – e de bom grado. Mas, não sendo útil a ninguém, tudo o que resta é um certo gosto de, como eu disse antes, partidarismo e maledicência, no que temos nos tornado mestres, um hábito, não raro, contraído na academia – no seminário onde estudei, tínhamos,em meu tempo, uma praça com esse apelido: praça da maledicência.

O fato é que temos, com nossos comentários e teclados afiados, desenvolvido mais "impressões" e "predisposições" a respeito de pessoas com as quais nunca trocamos palavra, sem, com isso, acrescentar uma vírgula ao conhecimento de Cristo que temos e que têm os nossos irmãos.

Paulo se refere à repreensão que proferiu a Pedro, como exemplo no contexto de uma exposição trabalhosa do Evangelho, com o objetivo de edificar os gálatas. Nós, sem fazermos exposição de coisa alguma, damo-nos o direito de dizer que achamos que Pedro mais atrapalha que ajuda. Não se trata, então, de uma discussão teológica, mas de uma atitude ética que devemos rever.

Então, meu irmão, nesse ponto minha preocupação vai muito além da pessoal e teológica – é comunitária e tem a ver com conduta ética. Qualquer um pode discutir cessacionismo, milenismos, landmarquismo, confessionalismo, liturgismos, etc..Mas, o nosso desafio é edificar igrejas missionárias, qualificar santos para a obra do ministério em qualquer área da vida e fazer isso rápido (e não em décadas), preparar presbíteros (que raramente os temos em condições de ouvir o discurso de Atos 20:18-35). Com graça, paciência e iluminação vamos resolvendo as questões mais periféricas de nossas diferenças teológicas. Neste ponto, temos de saber em que eu concordo e como posso cooperar com o meus irmãos na reforma que há por fazer, e isso é mais importante do que afirmar que o Fulano ou Sicrano não contribui o suficiente com o calvinismo porque ele advoga esse ou aquele ponto com o qual não posso concordar, seja qual for.

Estou sendo honesto, irmão, e afirmando minha disposição de achar pontos comuns em vez de ficar discutindo a miríade de assuntos polêmicos dos quais gostamos de nos ocupar. E fazer o ministério em vez de ficar na retranca, cuidando para não levar gol.

Para você Simão, um grande e saudoso abraço. Espero revê-lo em breve.

P.S.: É curioso que o texto que você citou como alvo de suas críticas tem mais de 25 anos.  Há 25 anos nem eu – e nem você e, quiçá, nem o pregador que você critica – cria em tudo que cremos agora; há 25 anos, eu achava, inclusive, que eu valia alguma coisa e sabia mais que meu pai. Uma esposa (bodas de pérola já completadas), três filhos e todos os pecados dos últimos 25 anos derrubaram a ilusão do machão aqui.

6 Comentários para “Carta a um Jovem Pastor Reformado: Cuidado com a Maledicência”

  1. Vinícius Silva Pimentel 19 Junho 2011 às 0:22 #

    Irmão Alberto,

    Maravilhoso texto! Espero que seja ouvido atentamente por todos nós que, de alguma maneira, abraçamos a fé evangélica reformada. Precisamos disso!

    Somente uma correção. No primeiro parágrafo, o narrador da carta faz uma menção negativa do destinatário fictício ao neocalvinismo. Porém, vez que ele cita Kuyper como um bom exemplo, acredito que estivesse se referindo ao “novo calvinismo”. A diferença entre esses dois movimentos tem sido ressaltada por aqueles que amam Kuyper e seus seguidores neocalvinistas holandeses, mas não simpatizam tanto com os “novos calvinistas” americanos, os quais têm sido, de forma infundada, chamados até mesmo de “mundanos” por escritores muito parecidos com o destinatário fictício deste texto.

    Em Cristo,
    Vinícius

    PS: Só pra deixar claro, eu sou um leitor de neocalvinistas e nada tenho contra o movimento holandês difundido por Kuyper!

  2. João Armando Coelho 19 Junho 2011 às 9:19 #

    A autoria é Alberto Costa, mas o estilo é Augustus Nicodemus… E não vai nenhuma crítica aqui, pelo contrário!

  3. Alisson 5 Julho 2011 às 17:37 #

    Oxalá tivéssemos a atitude de ética Cristã que acabou de ser referendada ao nosso fictício jovem!!! Minha oração é para que atinjamos a maturidade suficiente para superarmos as diferenças e consolidar a unidade que foi-nos concedida pela Graça de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

  4. Samuel Ben Henríquez 6 Julho 2011 às 11:41 #

    É interessante como as diferenças provocam e são motivadas pela inveja e um certo ranço de ódio por muitas vezes não ter argumentos contra o que ou quem se critica. Entendo este texto como um alerta para todos os cristãos e estudantes da palavra não cairem na vala comum de jogar pedras e gritar na multidão. Que o amor e as misericódias do Senhor, o espírito humilde e manso do nosso Senhor Jesus seja manifestado em tudo aquilo que fazemos, inclusive as críticas.

  5. vanio bonfim da silva 7 Julho 2011 às 20:30 #

    Querido Alberto,

    Creio que este texto aparece numa hora oportuna. Digo-lhe que estou começando a introduzir minhas leituras em torno do neocalvinismo, e, devido a seriedade e fidelidade que essa linha teológica trata sobre as Escrituras Sagradas,além disso, do notável contraste sobre as teologias emergentes, percebo particularmente uma certa inclinação minha em adotar o sistema de críticas a todos os que professam ter preferências por algo que seja diferente daquilo que venho lendo (embora, como disse, comecei a pouco).

    Que o nosso bom Deus tenha cuidado de mim, para que eu não deixe que a ciência me inche, mas seja edificado pelo Seu amor (1 Co 8.1).

  6. carlos da Conceição Rodrigues 16 Julho 2011 às 0:48 #

    Eu também estudei no Seminário que tem a Praça da maledicência.Creio que a crítica pela crítica nada acrescenta, revela sim, imaturidade. Tal qual o texto o que precisamos é nos colocar no lugar do outro. Creio que isso nos impede de ser leviano com nossos irmãos e com aqueles que ainda não são irmãos.


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