Perguntas básicas acerca de Jesus Cristo

Publicado originalmente na seção “Perguntas básicas: acerca de Jesus Cristo”, Revista Ultimato, v. 270 (1 maio 2001), p. 54 - 55.
Jesus é filho de José e Maria?
Jesus é o filho de Maria, gerado soberanamente pelo Espírito Santo, antes de seu casamento ter sido consumado (Mt 1:18-25; Lc 1:26-38; cf. Is. 7:14). Por causa do ser especial que Maria estava gerando, ela tem sido chamada por teólogos católicos e evangélicos de theotokos (mãe de Deus). Este vocábulo ensina, simplesmente, que a encarnação aconteceu na concepção de Jesus. Ele não se tornou Cristo mais tarde. José é pouco mencionado nos Evangelhos, mas estes mostram que ele agiu como um pai para Jesus (Lc 2.22, 41).
Jesus ora se apresenta como Filho do Homem, outras vezes como Filho de Deus. Afinal, de quem Ele é Filho?
A expressão “Filho do Homem” é uma expressão idiomática hebraica que significa “participante da natureza humana”. Jesus foi verdadeiramente homem. Mas Jesus também é verdadeiramente Deus. Os credos antigos confessaram unanimemente, seguindo as Escrituras (Jo 1.1-14; Rm 1.1-6; Fp 2.5-11), que Jesus Cristo é a pessoa única, tendo a natureza divina e humana, “em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis”. Somente um Cristo que é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem pode salvar os homens (1Tm 2.5).
Jesus tinha doze anos quando conversou com os mestres do templo (Lc 2.46) e cerca de trinta quando começou o seu ministério (Lc 3.23). Nesse longo período de dezoito anos, o que se sabe a respeito dele?
A Bíblia não menciona nada do que ocorreu neste longo período. Um aspecto interessante das religiões orientais que tem entrado no ocidente pós-cristão (apoiando-se em documentação extra-bíblica, como o Evangelho de Tomé, ou interpretações esotéricas) é a noção de que Jesus gastou entre os doze e vinte e nove anos estudando misticismo no Tibet e na Índia, e que sua mensagem central era o ensino dos Vedas. Devemos notar que há vários relatos sobre estes supostos eventos – e todos eles têm se revelado fraudulentos, sem nenhuma base histórica ou arqueológica. Eles servem apenas para dar uma desculpa aos adeptos de religiões orientais para inventar um Jesus panteísta e reinterpretar o Novo Testamento em termos de pressupostos ocultistas.
Jesus é com certeza o Messias que havia de vir?
Messias, em hebraico, significa “o ungido” (Christos é a palavra grega com o mesmo significado). O Evangelho de Mateus parece ter sido escrito especialmente para este fim: demonstrar que Jesus era o messias prometido no Antigo Testamento. Daí a frase que ocorre dezesseis vezes: “tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta...” Jesus Cristo é apresentado neste Evangelho como o Rei Messiânico, Filho da casa real de Davi, o leão da tribo de Judá (Mt 1.6, 16, 20; 9.17; 12.23; 15.22; 20.30; 21.9, 15, etc).
Na época de João Batista o batismo significava arrependimento. Se Jesus não tinha de que se arrepender, por que procurou João para ser batizado (Mt 3.13)?
Para cumprir “toda a justiça” (frase que pode ser traduzida como “fazer tudo o que é direito”), identificando-se com seu povo, como aquele que leva seus pecados. Esta identificação incluiu seu batismo e morte, sua unção com o Espírito e sua vitória sobre a tentação. Submetendo-se ao batismo, Jesus estava aceitando seu destino – pois seu batismo aponta para sua morte como um “resgate por muitos” (Mt 20.28). Devemos notar que ele não se tornou Filho de Deus no batismo, como alguns mestres heréticos afirmaram no passado, antes, seu batismo marcou o começo do seu ministério terreno – é significativo saber que quando um sacerdote judeu começava seu ministério, com a idade de trinta anos, lavava-se com água.
Se Jesus sabia de antemão que Judas “estava destinado à perdição” (Jo 17.12 NVI) e que o trairia (Jo 13.21), por que o chamou para ser um dos doze apóstolos (Mc 3.13-19)?
O papel de Judas na morte de Jesus muitas vezes nos causa desconforto. Mas os discípulos entenderam, posteriormente, que a morte sacrificial de Cristo não foi obra do acaso, ou de mera permissão divina. Deus, o Pai, predestinou a morte de Seu único Filho, desde antes da fundação do mundo (Atos 2.22-24; 4.24-28), usando soberana e livremente, sem ser o autor do mal (Tg 1.12), a corrupção (do sinédrio), a covardia (de Pôncio Pilatos) e a traição (de Judas) de homens pecadores. Nos Evangelhos, tanto quanto nas Epístolas, a morte de Jesus é central para o propósito divino (Mc 10.45; Jo 3.16; Hb 2.9,14; 9.26; I Jo 3.5; Lc 9.31; Ap 5.8s) e ele mesmo disse repetidamente que iria morrer como o cumprimento de sua obra na terra (Mt 16.21; 17.22; 20.18s; Mc 9.31; Lc 9.44; ss.21s; Jo 10.18; 12.32s; 15.20).
O que João Batista queria dizer quando apresentou Jesus aos seus discípulos como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29)?
No Antigo Testamento, o sistema sacrificial exigia o contínuo sacrifício de cordeiros sem defeito e sem mancha pelos pecados do povo. Jesus é o sacrifício definitivo pelos nossos pecados (Hb 9.11-10.18). Este sacrifício é suficiente não apenas para João e sua comunidade imediata, mas é válido em qualquer lugar do mundo, para “homens de toda raça, tribo, língua e nação” (Ap 7.9-10). É um sacrifício que não precisa de qualquer acréscimo. Este foi o tema de um clássico cristão, escrito em 1648, por um puritano chamado John Owen. Este livro era intitulado “A morte da morte na morte de Cristo”.
Qual o significado desta declaração de João: “O sangue de Jesus nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1.7)?
Este texto ensina que Deus faz mais que nos perdoar: ele apaga a mancha do pecado. E este é um processo contínuo. A morte de Cristo é um sacrifício de valor infinito para perdoar os que crêem, pois satisfez completamente a ira de Deus contra o pecado – este é o significado da palavra “propiciação”, usada em 1Jo 2.2.
Parece que a ressurreição do Senhor foi uma enorme surpresa para os apóstolos e para as mulheres da Galiléia que o serviam com seus bens (Lc 8.1-3). Por quê?
Parece que os discípulos não entenderam todas as implicações dos ditos de Jesus. A ressurreição faz parte essencial da pregação da igreja em todos os tempos. A esperança da futura ressurreição corporal dos crentes depende da ressurreição corporal de Cristo (1Co 15.1-19).
A aparição de Jesus a mais de 500 irmãos de uma só vez, a Tiago e a Paulo (1Co 15.6-8) foi antes ou depois da ascensão?
Antes da ascensão. Neste texto Paulo demonstrou a veracidade da ressurreição corporal de Jesus Cristo, ao apelar para testemunhas oculares confiáveis, que viram nosso Senhor ressurreto. A expressão “por mais de quinhentos irmãos de uma só vez” é significativa, pois exclui qualquer idéia de que a ressurreição tenha sido uma mera alucinação pessoal. No caso específico de Paulo a aparição de Jesus Cristo foi depois da ascensão – a frase “e, afinal” indica que estas aparições já tinham cessado, sendo concedido ao apóstolo o privilégio de ver o Senhor ressurreto, por ocasião de sua conversão.
Paulo diz que Jesus está reinando e colocando, agora, todos os inimigos debaixo de seus pés (1Co 15.25). Que inimigos são esses?
Esta é uma referência ao Salmo 110.1. É significativo que, no contexto, o único inimigo mencionado é a “morte”, que ainda não foi derrotada. Talvez esta exceção indique que os inimigos que Paulo tem em mente não são homens maus, mas os poderes espirituais da maldade. Uma implicação é que muitas vezes parece aos cristãos que os ímpios irão triunfar, mas esta aparência é temporária, pois, no fim, no clímax da história, Cristo Jesus, e mais ninguém, terá que reinar.
A Epístola aos Hebreus ensina que Cristo “aparecerá pela segunda vez, não para tirar pecados, mas para salvar os que estão esperando por ele” (9.28 BLH). Trata-se de um acontecimento literal ou não?
Sua volta será literal, num tempo desconhecido e inesperado, vista por todos, com conseqüências extraordinárias. Seu propósito é ressuscitar os santos, julgar o mundo e os ímpios, destruir os poderes malignos e restaurar a criação – este ensino é tão importante que é mencionado cerca de duzentas e cinqüenta vezes no Novo Testamento.



25 Comentários:
Acredito que essas perguntas e respostas são muito importantes! Glória a Deus porque elas estão na internet!
Atenciosamente,
Paulo Corrêa
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Twitter: http://twitter.com/apcorrea
Blog...: http://justificacaopelafe.wordpress.com/
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O SENHOR te abençoe e te guarde (Números 6.24)
Boa tarde Pastor Franklin.
Em primeiro lugar dou graças a Deus por ter levantado pastores como o senhor que zelam pela sã doutrina. Tenho acompanhado alguma de suas preleções e inclusive uma delas o senhor comenta acerca de um pacote com 40 sermões pregados na igreja do Cosme velho, esse material está disponível? Como posso adquiri-lo? Gostaria também pastor, do seu email se possível. Um abraço Deus Abençoe
Att
Alex Andrade Curitiba - PR
kyn_guita@hotmail.com
Tem conhecimento de que algumas outras religiões que têm fé em um outro deus, com outro nome, mas que também "criou" os céus e a terra?
Parabens pelo artigo e pelo blog, e sobre aquela pergunta básica onde Jesus estava dos 13 aos 30 acho que Mt. 13:55 responde, as pessoas o conheciam tão bem que quando o viram fazendo milagre se espantaram como quem diz: Ele nãó é nosso vizinho, de one lhe vem este poder, não conhecemos que nada aconteceu com ele, ele não foi a lugar nenhum, como pode ser isso?
Abraços,
Joelson Gomes
http://gracaplena.blogspot.com
http://hitoriacongregacional.blogspot.com
Bom dia, Pastor Franklin!
Graças a Deus pelas perguntas e respontas tão importantes!
Gostaria de saber se existe algum material da Editora Fiel
que ajude falar sobre Jesus Cristo para pessoas que freqüentam
as Testemunhas de Jeová.
Desde já agradeço,
Érika Ruiz
erikaruizusp@gmail.com
Amados do Senhor,
Ao lêr essas perguntas e suas respostas cantei em minha alma como Maria: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador". Lucas 1.46,47.
Graças a Deus que nos têm dado pastores que nos apascentem com satisfatório conhecimento das Sagradas Escrituras.
"Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência". Jeremias 3.15.
O SENHOR mata a fome das nossas almas com tais doutrinas.
Que Cristo seja sempre o centro!
Felipe Gomes.
olá a todos e principalmente ao autor do Blog!
sou um apaixonado por Cristo e por anunciar as suas Boas Novas!!!
mas vamos lá: discordo de uma das proposições deste artigo; mas infelizmente só percebi isso depois de tê-lo postado por e-mail a todos os meus contatos.
isso eu fiz por confiar antecipadamente em todo o seu conteúdo, pelo fato de se tratar de um blog ligado à Editora Fiel e à doutrina Evangélica.
o que acontece é o seguinte: desde quando a teologia evangélica usa o termo "mãe de Deus"? e desde quando uma expressão de uma mentira religiosa precisa ser usada para defender uma verdade - no caso, a verdade de que Jesus foi/é o Cristo desde a sua concepção?
só se for desde que a sã doutrina foi impermeada pelos ventos heréticos do Ecumenismo!!
bom... só me resta redobrar a minha atenção ao repassar informações pertinentes à Palavra de Deus, pois como sempre soube, ela é -infelizmente!, usada não só para se pregar a revelação divina da verdade como também os dogmas baseados na mentira dos homens e de suas religiões.
a expressão "mãe de Deus" é uma das coisas mais néscias/falsas/mentirosas/irreais, enganadoras para com os homens e ingloriosas para com Deus que há no meio religioso cristão - aliás, já herdada de outras heresias mais antigas através do sincretismo pagão da igreja (ecumênica, por sinal!) autora e propagandista sua.
estarei mais atento da próxima vez para não ser mais um a difundir enganos!
ao menos o restante do artigo se salva...
geekyle@gmail.com
Oi, JCPuglisi,
Não sei se entendi direito sua pergunta; de toda forma, não é só a fé cristã que afirma que existe um criador acima de todas as coisas. Outras crenças, antigas e novas afimam isto também. Vc pode ler um relato antigo sobre isto como o mito de Gilgamesh.
Qual a diferença da crença cristã para os mitos antigos e novos? A fé cristã, a partir de Gênesis, afirma que todas as coisas foram criadas por Yaweh, que há uma distinção completa e absoluta entre Yaweh e o restante da criação, que toda a criação foi criada boa (tanto em seus aspectos espirituais como também em seus aspectos materiais). Yaweh criou tudo do nada (ex nihilo). O Senhor não criou nada a partir de algo pré-existente. Outra questão importante é que Yaweh cuida e supervisiona toda a criação - mesmo o mal entrando na criação, este não dá a última palavra. Em sintese, estas são algumas das diferenças do que a Bíblia afirma e que não tem nada em comum com as crenças de outras seitas e grupos religiosos.
Felipe e Paulo, obrigado pelas bondosas palavras; lembrem-se de nós, aqui da editora, em suas orações.
Oi, Erika,
Recomendo três livrinhos:
1. A Tri-Unidade de Deus no Velho Testamento, de Stanley Rosenthal;
2. A Divindade de Cristo, de L. R. Shelton Jr.
3. Conheça as Marcas das Seitas, Dave Breese.
Procure também os livros de meu amigo Aldo Menezes, um ex-testemunha de Jeová. Para mim, são o que de melhor nós temos em português para uma boa refutação a esta seita.
Aqui vc pode ler um capítulo de um dos livros dele: http://www.geocities.com/irmaobrasil/cap6aldo.htm
Abs
Franklin
Oi, Alex,
Vou fazer um levantamento do que eu tenho aqui e envio para seu e-mail, ok?
Só aguarde um pouquinho.
Abs
Franklin
Oi, Joelson
Muito boa sua percepção; obrigado por compartilhar.
Abs
Franklin
Prezado geekyle,
Agradeço por freqüentar este blog e apreciar o material publicado por Editora Fiel.
Mas, usando de franqueza, sua mensagem é reflexo do “zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2). Paixão sem conteúdo é um risco na fé cristã.
Se vc conhecesse um pouco de teologia evangélica, vc descobriria que os principais teólogos protestantes afirmaram que Maria é a "mãe de Deus". Antes de pronunciar um veredito tão contundente, seria interessante que vc gastasse um tempo lendo as principais teologias sistemáticas evangélicas publicadas em português; aliás, recomendo que vc leia atentamente sobre os debates envolvendo Nestório, e que geraram a Definição de Fé de Calcedônia, em 451.
Parece que vc não tem muita noção do que está em jogo – então vamos lá: no contexto original, o que os pais da igreja reunidos em Calcedônia queriam afirmar é que aquele nascido de Maria é “Deus de Deus, luz de luz”. Eram os heréticos que afirmavam que Maria é (simplesmente) a “mãe de Cristo”, por razões que vc pode ler em bons livros de história da igreja ou de teologia sistemática. O mau uso que os católicos medievais deram a esta epíteto não invalida seu bom uso. Pois, como um dos pais da tradição evangélica escreveu, “não só se aplica o título de Filho de Deus Àquele que é nascido da Virgem [Lc 1.32], mas também a própria Virgem é chamada mãe de nosso Senhor [Lc 1.43]” (Calvino).
Colocando de outra forma, em seu zelo sem entendimento, vc se coloca ao lado da heresia nestoriana, separando as duas naturezas de Cristo, tornando-o alguém completamente diferente do Salvador descrito na Bíblia.
Abs
Franklin
Gostei muito do seu blog. Muito edificante. Parabéns. Pela qualidade das postagens, estarei sempre visitando. Se puder visitar o meu, ficarei muito feliz. Para quem está começando, é sempre bom ter um feed-back de quem já está na blogosfera há mais tempo. Fique na paz.
www.vivendooevangelho.blogspot.com
Caro irmão Franklin,
Também sou batista reformado. Mas estudando um pouquinho a teologia do pacto, passei a refletir sobre a nossa posição a respeito do batismo, coisa que jamais fizera antes, por ter nascido em uma família batista.
Sobre o batismo de Jesus, quando se diz que o sentido de que ele foi "batizado para que se cumprisse toda a justiça" é que ele precisava se identificar com seu povo como aquele que leva os seus pecados, essa interpretação me parece inconsistente.
Sabendo que Ele próprio não tinha pecados e que carregaria os pecados do seu povo; e sabendo que o batismo, para nós (batistas), significa justamente participar da morte e ressurreição do Senhor ("morrer para o mundo e ressurgir para uma nova vida em Cristo"); dizer que ele ele tinha de ser batizado para se identificar é contraditório, já que essa identidade do batismo (como morte e ressurreição) ainda não existia.
O argumento de que também seria exemplo para todos os que creriam e obedeceriam à sua ordenança, a meu ver, enfraquece demais os simbolismo envolvido no ato do batismo.
Pastor Franklin, não lhe parece mais coerente a segunda ideia apresentada na resposta à pergunta básica, a de que o batismo de Jesus ocorreu para marcar o início do seu ministério e, consequentemente, da própria Igreja?
Nesse sentido, o significado do batismo passa a ser - muito mais do que identificar-se com a morte e ressurreição (embora não excluído) - o símbolo ou selo de incorporação ao corpo de Cristo. Naquele momento, o próprio Cristo, em seu corpo humano, estava presente, marcando o início do seu ministério público e da Igreja. Posteriormente, após a ascensão, esse continuará sendo o símbolo de agregação dos convertidos à Igreja, o corpo de Cristo no mundo.
Até aqui tudo bem, né? Desculpe-me se estou me estendendo. A questão que surge é: por que esse sinal não podia ser aplicado às crianças, filhas de pai ou mãe crente, tendo em vista 1 Co.7:14 e Gl.3:16,17? Além do mais, o próprio Senhor ordenou que não impedissem as crianças de vir a Ele, pois delas é o reino dos céus. Com isso, não estaria ele incorporando as crianças também à igreja nascente?
(continuação)
Tem o conhecido argumento do batismo como sendo o substituto da circuncisão como símbolo exterior da participação na comunidade da Aliança, a comunidade dos salvos, a própria Igreja. Paulo diz em Gálatas que a Aliança feita com Abraão, simbolizada na circuncisão, não poderia ser revogada pela lei - deve-se lembrar que as crianças circuncidadas não podiam crer, mas eram agregadas à igreja visível do Antigo Testamento. Assim, quando Cristo é batizado, ele institui esse novo símbolo de participação na igreja, seu corpo, mas não estabelece a exclusividade para adultos (exige-se fé de quem é capaz de crer - não seria absurdo exigir de quem não capaz, como uma criança ou um deficiente mental?).
Some-se a isso o texto de Cl. 2:8-12, onde lemos que Cristo é a nossa circuncisão, participando de Sua morte e ressurreição no batismo (agregação ao corpo?), me parece muito lógico e coerente que não há razão para negarmos o batismo aos filhos de pessoas regeneradas pelo Espírito. Apesar disso, simplesmente não consigo aceitar que possa haver na igreja membros que não tiveram arrependimento e fé, ainda que apenas durante a "fase da inocência" (sendo-lhes exigido, posteriormente, a profissão de fé quando souberem discernir certo e errado).
Também me questiono quanto ao testemunho da história. É verdade que Agostinho considerava essa prática como iniciada desde os dias da igreja primitiva? Havia outros grupos que batizavam exclusivamente adultos desde os tempos imemoriais ou isso só começou com montanistas e novacianos? Se não havia e se no tempo apostólico já se considerava normal as crianças serem batizadas, por que os batistas não as batizam? Estaríamos nós errados?
Se você tiver disposição em esclarecer essas dúvidas, ficarei muito grato. Se não, tudo bem, mas ao menos me indique boas fontes (históricas, exegéticas e teológicas) para pesquisar sobre o assunto. Fique à vontade para não publicar o comentário, se não achar pertinente, podendo enviar resposta ao meu e-mail (lukesbeard@gmail.com).
Fique na paz de Cristo. Abs,
Lucas Almeida
Oi, Lucas,
Vamos por partes:
Eu escrevi este texto em 2001. Minha posição sobre o batismo de Jesus como narrado nos evangelhos mudou bastante; entendo que o batismo de Jesus é o sinal do começo da Nova Criação. Todo o quadro dos relatos do batismo de Jesus remetem ao relato de Gênesis 1; o Pai nos céus; o Espírito pairando sobre as águas; a Palavra audível e visivel. Na sequencia, Jesus vai para o deserto ser tentado (enquando, logo após a criação, Adão é tentado no jardim). Depois, o sermão do monte (onde ele se apresenta como alguém maior que Moisés). Depois uma sequencia de milagres que remetem o leitor às pragas do Egito. No fim, um Primogênito morre para salvar a muitos. Em outras palavras, o que os relatos dos Evangelhos querem mostrar é que em Cristo irrompeu a Nova Criação. Jesus está recapitulando a história do primeiro Adão, como o segundo Adão; onde o primeiro desobedeceu, o segundo foi perfeitamente obediente, para salvar a muitos de seus pecados. Os paralelos dos relatos evangélicos com personagens e a história de Israel permeiam toda a vida terrena do Salvador. Rm 5.12-21 é o resumo da história redentiva.
Continuando, Lucas:
Minha posição sobre a teologia do pacto é um pouco diferente do que vc vai encontrar na CFW ou na CF1689. Ela está bem próxima da posição de John Murray, Van Groningen e Palmer Robertson; em outras palavras, tenho muita dificuldade com o conceito de pacto das obras, preferindo o entendimento de que em Gênesis temos um pacto criacional, também gracioso.
Quanto à questão do batismo, as imagens bíblicas são multifacetadas; não se limitam apenas a afirmar e selar nossa união (mística) com a morte e ressurreição de Cristo; estas imagens remetem ao lavar regenerador do Espírito, nossa entrada no Corpo (místico) de Cristo, o recebimento do amor de Deus, etc. Posto isto, eu creio que o batismo é sinal e selo da obra da graça; não tenho dificuldade com a linguagem sacramental reformada quando ao batismo. Também não tenho dificuldade com o batismo por aspersão, que, me parece, tem o seu suporte bíblico e histórico - já que a fonte mais antiga para a teologia batismal, o Didaquê, afirma que haviam os dois modos de batismo já no início da igreja primitiva.
Quanto à questão do batismo infantil, a situação se complica um tanto. Não há nenhum texto-prova explícito sobre tal prática. Todos os texto-prova são circunstanciais. Quando pensamos em termos de princípio regulador do culto, isto torna a prática um pouco mais complicada, não é?
Historicamente, o batismo infantil só se tornou prática corrente em meados dos séculos 4 e 5. Antes, não havia uma posição unânime. Agostinho mesmo só se batizou com 33 anos. Sua mãe, Mônica, não queria batizá-lo antes, pois a crença corrente da cristandade primitiva era que certos pecados cometidos após o batismo eram sem remissão. Tertuliano foi um dos que se encarregou de expor esta posição. Ademais, a base teológica para o batismo (e isto se aplica depois ao batismo de infantes) era bem diferente da teologia das alianças, surgida na Holanda nos séculos 16 e 17. A idéia básica na cristandade primitiva é que o batismo estava ligado à recepção do Espírito e à regeneração, assim como à troca de senhorios (de satanás para Jesus Cristo). Então, passou-se a batizar infantes na suposição de que o batismo os regeneraria, em tenra idade.
Ainda falando de Tertuliano, que escreveu o primeiro tratado sobre o batismo na história (com o título De Baptismo), ele afirmou em fins do século 3:
Todo o pedido pode decepcionar e ser decepcionado. Por isso é preferível protelar o batismo conforme a condição, a disposição e também a idade de cada qual, sobretudo quando se trata de crianças. (...) Não há dúvida que o Senhor disse: Deixai vir a mim os pequeninos! (Mt.19.14). Pois bem, que se aproximem! Porém, quando tiverem crescido, e quando estiverem em idade de ser instruídos, e quando tiverem aprendido a conhecer para que vêm. Que se tornem cristãos quando forem capazes de conhecer a Cristo!
Devo notar que a tradução popular de Mt 19.14 ("dos tais") não é unânime; uma outra tradução possível (e, para mim, preferível) é "de tais".
Por fim, devemos evitar toda disputa acirrada sobre esta questão, correndo o risco de tornar este rito um ídolo. Aliás, eu diria que o rebatismo também incorre em tornar este meio de graça um ídolo. Na medida em que tornamos este rito um sinal de entrada em determinada denominação ou igreja, já erramos em nossa teologia batismal. Este é um rito de entrada no Reino, e como tal é irrepetível, assim como houve uma única ressurreição de Cristo dentre os mortos. Por isto, toda idéia de rebatismo deve ser rejeitada como uma perversão da teologia batismal bíblica.
Por fim, recomendo a leitura do ótimo capítulo sobre John Bunyan, no clássico de Lloyd-Jones, Os Puritanos: suas origens e sucessores.
Espero que ajude,
Franklin
Prezado Franklin,
estou aguardando a publicação do meu post.
não acho coerente que você deixe de fazê-lo, mas presumo que esteja preparando uma resposta ao mesmo.
Abraços,
Paulo Amorim
geekyle@gmail.com
Prezado Paulo/geekyle,
Sua última postagem foi solenemente deletada.
Não havia nada novo ou que merecesse resposta naquele comment.
Abs
Franklin
Prezado Franklin,
dei a minha cara a tapa e está aí do que fui chamado, "faltoso de entendimento", "apaixonado vislumbrado (sem conteúdo)", "sem noção (!!! - este o pior pelo contexto atual da expressão entre os jovens como eu)" e desconhecedor da teologia protestante...
faz parte do debate! eu também lhe chamei de ecumênico.
mas do que você disse assumo apenas que não conheço a história da igreja e das lutas pela sã doutrina tão bem quanto você.
mas de uma coisa eu sei, "mãe de Deus" é uma expressão da obscuridade religiosa católico-romana que eleva a mãe de nosso Senhor (o Filho do Homem) ao sublime (porém, fajuto!) cargo de Nossa Senhora (e as demais prerrogativas que lhe são extra-biblicamente acrescentadas), isso para engano e tropeço dos vislumbrados (estes sim!) fiéis catequisados (ou não!) pela igreja de Roma.
se não foi assim desde o começo e não se começou com essa intenção é um lado da história. mas o fato pertinente ao seu uso atual é este que lhe falo, ao menos fora das paredes das faculdades teológicas. e foi nesse ponto que eu toquei.
e ainda no auge da minha falta de noção eu confessei: "Jesus foi/é o Cristo desde a sua concepção", independementemente se existe uma "Nossa Senhora" que além de ser tão senhora qto o Senhor (ou mais, como quer a religião dela) é a mãe do Criador (nossa! o Criador tem uma mãe... quanta noção!!!)
continuando com a minha franqueza, o seu uso/defesa/entendimento dessa expressão é um reflexo de "coar-se um mosquito e engolir um camelo" (Mt23,24). conteúdo sem justa praticidade é um risco à fé cristã.
aproveitando o ensejo, gostaria de saber se o Senhor é o Salvador de Maria por ela ter caído no rio (doutrina evangélica) ou por ter evitado que ela caísse (doutrina católica) - Lc1,47.
Abs
Paulo Amorim
geekyle@gmail.com
Vamos lá, Paulo,
Parece que vc não se satisfaz com uma simples resposta.
Em primeiro lugar, sei que mensagens virtuais não demonstram emoção, etc. Mas, por exemplo, há uma grande diferença na forma como vc escreve e a forma, por exemplo, que o Lucas discordou de mim, acima - ele divergiu de uma questão, e respondi a ele. Ainda usando este exemplo, o "tom" das duas mensagens do Lucas é muito diferente de suas postagens, que passam a imagem de superficialidade e, preciso reafirmar, zelo sem entendimento.
Como se nota por sua mensagem acima (que vc já mandou pelo menos duas vezes!), ela não acrescenta nada ao debate. Aliás, vc mesmo admite não ter bom domínio da história da teologia. Talvez por isso, vc só fique repetindo uma cantilena anti-católica sem demonstrar nem mesmo conhecer o que está em jogo!
Então, vejamos: em seu primeiro comment neste blog, vc entra de sola, não gosta de minha resposta, admite não entender os detalhes teológicos do que está em jogo e vai ficar ainda fazendo chantagem emocional para que eu publique uma treplica?
Paulo, em primeiro lugar, mais humildade. Isto aqui não é um "espaço democrático". É um espaço com moderação. Eu me reservo o direito de aprovar ou deletar as mensagens. Em segundo lugar, mais educação, em dois sentidos: não adjetive quem vc não conhece, e estude um pouco mais antes de adjetivar os outros.
Sei que não há almoço grátis, mas vá estudar um pouquinho sobre o assunto; leia, por exemplo, prá começar, A história das doutrinas bíblicas, do Berkhof. Talvez isto ajude. De qualquer forma, vc tem todo o direito de não aceitar o theotokos; mas não suponha ser mais ortodoxo ou evangélico sem entender realmente as questões bíblicas e teológicas da questão.
Em sua última mensagem, vc, tão apressado para firmar sua posição, confunde os próprios títulos cristológicos, misturando "Senhor" com "Filho do Homem". Se vc estudar um pouquinho, vc verá que "Senhor" é equivalente no NT a Deus. O emprego deste vocábulo é o equivalente ao Adonai no AT. Então, quando Lc (1.43) diz que Maria é a mãe do Senhor, o evangelista simplesmente está dizendo que aquele gerado pelo Espírito por Maria é Deus, logo, Maria é mãe de Deus - isto é, aquele gerado nela é Deus de fato, não um ser com duas naturezas divididas ou um ser com duas naturezas misturadas/confundidas.
Convenientemente, vc ignorou duas outras questões de minha primeira resposta: a citação de Lc 1.32, onde é dito que aquele que nascerá de Maria é o filho do Altíssimo (ou, segundo outra tradução, filho de Deus), que é uma expressão equivalente a dizer que o nascido de Maria é "Deus" e a própria citacão de Calvino - imagino que alguém que afirmou tão categoricamente que o uso do theotokos não faz parte da "teologia evangélica", deve ser meio constrangedor ler da pena do próprio Calvino tal defesa, não? E olha que nem citei Lutero ou Zwinglio!
Com isto encerro esta questão. Qualquer outro comment seu sobre este assunto será deletado, ok?
Abs
Franklin
Só um adendo, Paulo:
Publiquei sua primeira mensagem, apesar do "tom" da mesma, por ser ilustrativa de muito do pensamento dos crentes brasileiro: é anti-católica, mas não é claramente protestante ou evangélica. Entedi que seria uma boa ocasião para responder à rejeição comum de um vocábulo importante nos estudos cristológicos.
Outra questão: ainda que eu tenha citado no texto que no AT a expressão Filho do Homem se refira a algo como "participante da humanidade", no caso específico de Jesus esta expressão remonta ao uso da mesma em Dn 7 - em outras palavras, ao se identificar como Filho do Homem, nosso Senhor está se referindo ao Filho do Homem celestial citado pelo profeta do AT - outra afirmação da messiandade e divindade de Cristo, vero Deus, vero homem.
Prezado Franklin,
Obrigado!
por ter postado a íntegra da minha opinião. era somente isso que eu queria e achava justo. o conteúdo do Blog é de responsabilidade e dependente de autorização sua, verdade!
eu não pretendo dar prosseguimento a este debate. gostaria apenas de dar a minha última palavra, assim como você deu a sua, sem dizer nada que levante outra discussão.
reconheço e reafirmo sem nenhum acanhamento ou desmerecimento que não tenho a formação, a experiência e o conhecimento que você tem. mas certamente isso não me faz menos digno de ser ouvido. e admiro tudo isso em você, mas ainda mais a sua coerência se você aceita um comentário contrário.
sobre o theotokos, já dei a minha opinião no ponto em que quis tocar. não a opinião teológica que me falta, mas conforme o que já expus anteriormente. o seu espaço é moderado, e realmente não é um fórum de discussão. portanto, respeito-o e não toco mais no assunto.
sobre a minha humildade ou a falta dela, e sobre a minha "superficialidade", quando você me deu a primeira resposta, eu a achei "forte" e quis respondê-la no mesmo tom. mas quando revi o meu primeiro comentário, percebi que também não havia sido tão "doce".
num debate político, por exemplo, alguém se sobressai. mas aqui neste caso, certamente não quero isso pra você, mas também não quero pra mim. não precisamos. isso é apenas um ponto de vista em desacordo em meio a muitas outras questões que temos em concordância pela nossa fé em comum. não importa você mudar a minha opinião sobre o tema, menos ainda eu mudar a sua. importa apenas termos o direito de as expor. e era esse o final que eu queria quando insisti em ter o meu segundo comentário postado. o espaço aqui é seu. portanto, mais uma vez, com sinceridade, obrigado!
estando o assunto concluído, retiro-me.
apesar de tudo que há e que não há entre a minha pessoa e a sua, se professamos a mesma fé e somos por isso irmãos,
A Paz de nosso Senhor Jesus!
Paulo Amorim
geekyle@gmail.com
Paulo,
Se vc tivesse se aproximado com o "tom" de seu último comment, nossa conversa teria sido bem mais proveitosa.
A paz de Cristo para vc também.
Abs
Franklin
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