quinta-feira, 11 de março de 2010

A Parada Comparada

Luiz Sayão

Nos últimos anos a sociedade tem percebido uma crescente visibilidade do movimento gay. Um dos sinais mais marcantes do movimento de raízes estrangeiras é o que tem sido chamado de Parada Gay. Tais manifestações públicas que gastam o meu e o seu dinheiro, pois recursos do estado são gastos em função da passeata, já se tornaram rotina. Em São Paulo, recentemente, foi divulgado que quase três milhões de pessoas participaram do evento. É difícil imaginar que quase 30% da cidade estivesse presente ali. Sem falar do fato de que a Avenida Paulista tem um movimento diário normal de um milhão de pessoas! O que nos surpreende é o tom exageradamente positivo dos meios de comunicação.
A pergunta que surge diante de tal visibilidade é simples: Qual é a razão disso? Qual é a função ou a razão de ser de tal parada? Confesso que não entendo! Isso me faz lembrar da história de uma imigrante chinesa que chegou ao Brasil há cerca de quarenta anos. Ela foi levada a uma festa junina e, sem saber do que se tratava, viu um casal dançando quadrilha com as roupas esfarrapadas. Sem entender o que se passava, a moça estrangeira pensou que aquilo era um casamento. Assustada, imaginou: “Que país mais estranho! Nunca vi uma noiva tão feia!” Sou obrigado a expressar minha consternação: Essa parada é uma grande charada! Não dá para entender nada!

É claro que já posso ouvir os argumentos de muitos: “A parada é uma celebração da diversidade. É a valorização da opção diversificada.” Mas minha mente prossegue apurada, sem entender a parada! Interpretá-la já é uma parada! Se a parada fosse um movimento em favor da diversidade sexual, por exemplo, teria sido muito diferente. Eu esperaria ver um “grupo de polígamos”, um “grupo de mulheres adeptas da poliandria”, “um grupo de castos”, “um grupo de casais heterossexuais que fizeram bodas de ouro” (são minoria hoje), “um grupo de sacerdotes católicos virgens” (é uma opção sexual). E ainda poderíamos imaginar o grupo dos divorciados, dos monogâmicos restritos, dos pansexuais e até dos zoófilos! Não é assim com a parada; a parada é monotônica. Não tem nada de diversidade. É uma parada separada! Não propõe a inclusão dos diferentes!

Ao contemplar algumas poucas cenas da referida parada, pude ver pela televisão cenas que, pela lei, seriam censuradas. A liberdade exagerda dos participantes torna inútil até mesmo o conceito de atentado ao pudor. Será que em vez de diversidade, a parada procura celebrar o sexo, à semelhança dos antigos gregos e romanos!? Mas por que gastar dinheiro público com isso? Se a questão é sexualidade, não deveria ser diversificada? Democraticamente votada? A verdade é que a parada, em outros temposcensurada, parece aos mais velhos um tanto tarada. Algumas das suas cenas públicas, em tempos antigos, custariam algumasvaradas, pois seus participantes numa euforia de tourada deixariam a multidão corada.

Pode ser, porém, que a parada tenha outro significado. Poderia tratar-se da celebração de um grupo rejeitado pela sociedade, que nasceu assim e precisa ser incluído. O foco da discussão seria essencialmente genético. No entanto, mais uma vez, creio que aparada precisa ser comparada. Essa parada parece um tanto murada, sem dar espaços às multidões de gente discriminada! Entre muitas possibilidades podemos destacar os obesos, os portadores de deficiência e as minorias raciais! Para minha surpresa, aparada não contemplou muita gente que precisaria ser curada, socialmente amparada. Mais uma vez, preciso dizer que a parada nada teve de dourada, pois permaneceu intencionalmente separada.

Diante do discurso solo da parada, que optou por ser separada e até mesmo murada, é preciso dar uma boa reparada. Afinal, o que o movimento da parada quer e exige! A preocupação de grande parte da sociedade civil com o movimento hoje não tem nada a ver com a sexualidade dos seus participantes. O problema está na convivência dos mesmos com grupos diferentes! Avaliemos a situação.

O movimento gay, que deve ser separado dos diversos indivíduos que convivem com a homossexualidade, parece pretender ampliar sua voz solo e calar todos os que pensam diferentemente de seus adeptos. Imagine o argumento pró-gay aplicado a outros grupos: vejamos o caso das pessoas obesas. Podemos argumentar que algumas são assim por opção e outras por razões genéticas. Mas imagine o que seria se nunca mais se pudesse questionar a obesidade? Imagine se ensinássemos a quem tem tendência a obesidade a desenvolvê-la sem aceitar quaisquer críticas! Por que um homossexual é melhor do que um obeso? A homossexualidade não pode tornar-se uma obrigação. Ficamos assustados quando vemos religiosos presos em alguns países por interpretarem a homossexualidade de modo diferente. Em Massachussets (EUA), crianças participam de aulas que induzem à homossexualidade, e tudo com dinheiro público! O narcisismo do movimento desconsidera outras opiniões e valores. Caminhamos na direção de um lobbyque quer punir quem pensa diferente. É o fim da liberdade de expressão! Creio que não demora o tempo quando um homossexual que deseja despertar “seu lado heterossexual" e “reprimir sua homossexualidade” seja punido pela lei!

O problema mais sério é que o movimento gay parece pretender que os homossexuais sejam cidadãos com direitos especiais, acima dos demais mortais. Além do fato de que não há dúvida de que se isso se confirmar, muita gente “se dirá homossexual” só para ter vantagens. Um exemplo prático é o caso da aposentadoria no Brasil! Imagine se um homossexual masculino consegue aposentar-se cinco anos antes (privilégio feminino no Brasil)! Estou certo de que “muitos malandros tupiniquins” farão de tudo para conseguir “seus direitos”.

Diante do fato do movimento gay não ter sequer considerado o respeito aos judeus ortodoxos de Jerusalém recentemente, a comunidade religiosa deve mobilizar-se, pois, em breve, padres, rabinos, monges e pastores serão presos por lerem textos bíblicos em seus cultos. Até a Bíblia corre o risco de ser confiscada.

Nossa sociedade democrática e pluralizada precisa respeitar os limites dos outros. O movimento gay, ainda que discordemos de seus pressupostos e práticas, tem o direito de agir como entender em seus limites, mas jamais poderá impor uma ditadura intolerante para outras pessoas. Tanto o gay como o religioso tem valor por serem pessoas, e não por suas particularidades. A verdade é que o movimento da parada pode ser uma grande furada, pois cheira a atitude revoltada. Se o movimento da parada murada quiser transformar nosso povo em gente azarada, com sua liberdade refreada, está na hora de propormos uma virada.

Não se esqueça de dar uma boa comparada entre as idéias do movimento com a Palavra que deixa a vida de quem a recebe plenamente sarada: “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade.” (Tg 2.1)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Cabana - A Perda da Arte de Discernimento Evangélico

Prezados leitores,

Aproveito o ensejo do texto anterior, em que lamento a perda da nobreza bereana entre o povo de Deus, para divulgar o excelente artigo de Dr. Albert Mohler sobre o livro Best-seller "A Cabana", de Willian Paul Young, publicado no Brasil pela Editora Sextante.

Nesta análise, Dr. Mohler chama a atenção para os aspectos doutrinários que estão implícitos na estória. Ele diz: "A teologia de A Cabana não é incidental à história. De fato, em muitos pontos a narrativa serve, principalmente, como uma estrutura para os diálogos. E estes revelam uma teologia que, no melhor, é não-convencional e, sem dúvida, herética em certos aspectos.".
Hoje cedo, em correspondência com um amigo sobre o texto, escrevi que: "...Assim como o apóstolo Paulo fez aos gálatas e aos Tessalonicenses (e a outros), e o Senhor, às sete igrejas, é preciso que os mestres na igreja estejam atentos para as ameaças / ensinos que são introduzidos ao povo de Deus e que podem causar confusão ou engano entre o povo de Deus. Creio que foi nesse espírito que o autor do artigo produziu sua crítica."
Recomendo, portanto, aos leitores deste blog que leiam o aludido artigo e, tanto quanto possível, divulguem-no em suas igrejas e entre seus amigos.
Para acessar ao artigo:
CLIQUE AQUI ou acesse: www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=315.
Caso queira comentar algum aspecto do artigo ou do próprio livro em questão, use o espaço de comentários deste blog.

Em Cristo Jesus, nosso Senhor,
Tiago Santos

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Nobreza perdida

Tiago Santos

Há certos assuntos sobre os quais não se fala muito hoje em dia. Vivemos em tempos em que as pessoas não gostam de ser importunadas ou confrontadas com certas questões. Alguns temas que tocam nossa vida diária, não podem mais ser abordados sem que se corra o risco de ofender uma consciência aqui e ali; afinal, alguns argumentam, esses assuntos incômodos encontram-se em um campo de conceitos subjetivos, submetidos ao crivo do particular. Ou seja, o que é para mim poderá não sê-lo para você. Aliás, essa é a principal característica de nossos tempos: relativismo. Tudo é relativo.

Nas últimas décadas, essa mentalidade tem alcançado a igreja. Os valores cristãos, absolutos por definição, estão sendo devorados por essa forma de encarar as coisas. Assim, os púlpitos estão sendo esvaziados e não sobra espaço para se abordar temas considerados controversos e ultrapassados: pecado, inferno, evangelho, regeneração, ira de Deus, santidade, parecem temas que fazem parte de uma história remota e obscura da igreja cristã.

A agenda evangélica tem sido cada vez mais ocupada por assuntos do momento – via de regra, de cunho ecológico, social, ou, como alguns preferem, missional. Os proponentes desta nova agenda evangélica, articulistas, escritores, apóstolos e pastores, ao abandonarem a Escritura para lidar com as questões da vida e do momento, precisam cooptar com ideologias estranhas ao cristianismo, via de regra com viés político esquerdista e com as novas hermenêuticas que as filosofias pós-modernas têm proposto, oferecendo suas fórmulas como panacéia dos males mais profundos de que padece a humanidade – ignorando que a Queda e seus efeitos é que de fato causam a mais abissal miséria do homem.

Mas, uma das características mais marcantes dos proponentes desta nova agenda entre o povo evangélico, é a força de sua propaganda e a virulência de sua beligerância – intolerantes em nome da tolerância, não aceitam o contraditório e rejeitam o debate na arena bíblica. A defesa da fé é reputada como conduta reacionária fundamentalista, ao arrepio das Escrituras e de cartas bíblicas como a de Judas.

O politicamente correto em que vivemos, parece ser incompatível com a velha idéia de buscar a orientação da Escritura para “ver se as coisas são mesmo assim”.

Isso tudo se constitui num grande desafio para o cristão sincero hoje. Precisamos reaprender a pensar biblicamente e a submeter as questões mais complexas da vida ao crisol das Escrituras – no melhor espírito da nobreza bereana.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Carta enviada à Revista Ultimato em referência ao texto "Deus – Pai ou Mãe?"

Franklin Ferreira

Conquanto a revista Ultimato tenha um lugar de importância entre os periódicos evangélicos publicados no Brasil, alguns de seus autores têm difundido repetidas vezes opiniões que vão além do que nos é revelado nas Escrituras e em oposição à tradição evangélica. Em sua edição 318, de maio-junho de 2009, esta revista publicou o texto "Deus – Pai ou Mãe?", escrito por Bráulia Ribeiro. Em 9 de junho de 2009 escrevi uma carta para a revista sobre este texto. Somente em 26 de agosto de 2009 recebi um tipo de resposta-padrão da editora: "Recebemos seu comentário, ele é sempre bem-vindo. Por uma questão de espaço nem toda correspondência que recebemos é publicada. Suas críticas, sugestões e/ou observações serão encaminhadas ao diretor-redator e articulistas para que eles tomem conhecimento".

Abaixo, posto minha correspondência para a revista, ligeiramente revisada e editada.



Prezados irmãos,

Preciso confessar que já há algum tempo ando desencantado com a revista Ultimato. Quando servi na equipe pastoral da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, entre 2000-2007, minha esposa cuidou da livraria daquela comunidade. Fazíamos questão de promover a revista Ultimato, inclusive por meio de assinaturas, mesmo discordando de um ou outro texto - especialmente os de Ricardo Gondim e, algumas vezes, os de Robinson Cavalcanti e Paul Freston. Aliás, antes disso até, minha esposa já divulgava a Ultimato através de uma assinatura coletiva que mantinha com seus colegas de trabalho.

Hoje sirvo na equipe pastoral de uma igreja batista em São Paulo, e não tenho mais como indicar a revista como referência para os membros desta igreja. O último escrito da Bráulia é um exemplo do que quero dizer. O texto intitulado "Deus - Pai ou Mãe?" é generalista, grosseiro e pagão.

Por exemplo, ela escreve a partir de sua experiência pessoal: "Minha experiência não é diferente do que é vivenciado pela maioria da população brasileira e do mundo. Mãe pra nós é igual amor caloroso, quente, cheiroso, vivo. Pai já é mais complicado. Pra muitos, infelizmente, pai significa abuso, violência, abandono, dor". Bom, me permita compartilhar minha experiência. Eu sou pai de uma filha; ela tem oito anos. Não só a compreensão que tenho do que a Bíblia ensina sobre Deus o Pai, mas o que ela ensina sobre a paternidade me ajuda a agir para ser um pai de verdade para ela; duvido que a minha filha (inteligente e perceptiva que só) concorde com o que a Bráulia escreveu. E minha experiência como filho de igual forma não me permite concordar. Aliás, preciso notar que a autora consegue saltar de sua experiência pessoal para uma generalização infundada. Se ela supõe falar em nome de "muitos", ela tem que provar seu argumento. Ela precisa mostrar quem são a "maioria da população brasileira e do mundo" que concorda com ela. Ou, se não, que ela restrinja-se a falar somente a partir de sua experiência pessoal, e pare de se esconder atrás de supostos "muitos". Por outro lado, muito irônica a reportagem do Fantástico no domingo retrasado (24 de maio de 2009); uma mãe oferecendo sua filha para um "programa sexual" por... quatro garrafas de cerveja. E, depois, querendo vender sua filha por míseros R$ 500,00. Puxa! Isto é que é "amor caloroso, quente, cheiroso, vivo"! Segundo o Jornal Nacional, essa mãe foi presa na terça-feira passada (2 de junho de 2009). Mas esse é apenas um dos milhares de exemplos negativos em nosso país, em que há fartos exemplos de mães abandonando seus filhos ainda recém-nascidos. Menos generalidades superficiais, por favor. Em vez de fazer uma caricatura da paternidade, contrapondo-a superficialmente à suposta "perfeição" da maternidade (como se o pecado não desfigurasse igualmente maternidade e paternidade), ela faria muito melhor se mostrasse o que vem a ser a verdadeira paternidade e maternidade à luz da Bíblia. Não será ridicularizando ou rebaixando a paternidade que ela ajudará os homens a serem homens de verdade e verdadeiros maridos e pais.

Mais adiante, Bráulia escreveu: "Na América Latina, o continente onde o pai veio de longe e ao nos estuprar nos concebeu bastardos, vivemos no vazio da imagem masculina do amor. O pai se foi, e dói em nossa alma órfã". Presumo que ela fale aí dos estrangeiros que vieram prá cá, para povoar e trabalhar nesta terra, em meio a grande sacrifício, fugindo da fome e da guerra no Velho Mundo e no Japão. Como muitos brasileiros, meu pai era português. O único membro da família que se converteu ao evangelho. Literalmente, morreu de tanto trabalhar (e ainda estudava num seminário teológico à noite, pois almejava servir no ministério pastoral) para dar uma vida digna para sua família. Exemplo de retidão e paixão pelo evangelho. Mais uma vez, Bráulia só pode falar por ela. Generalizações são toscas.

No fim, o pior. Ela terminou o texto orando com um ímpeto típico daqueles influenciados pela teologia feminista: "Pai-Mãe nosso celestial, acima do gênero e falhos modelos humanos, tenha piedade de nós, nos ajude a conhecer o verdadeiro amor..." Tomo a liberdade de citar, abaixo, o que escrevi com meu colega Alan Myatt na Teologia Sistemática que Edições Vida Nova publicou em 2007 (páginas 248-249). Respondemos ao uso indevido de imagens femininas para caracterizar Deus – prática bastante comum entre os pagãos do Antigo Testamento, que atribuíam sexualidade à divindade, como Baal e Astarote. Ao ir além da linguagem bíblica inspirada, que, no que se refere a Deus, é analógica – como ensinou João Calvino há muito tempo atrás, é a linguagem da acomodação da misericórdia divina –, Bráulia se colocou ao lado dos que abraçaram a teologia liberal e das feministas pagãs de nossa era. Se ela não se limitar agora à linguagem bíblica, não será um suposto "bom senso" que irá impedi-la de, em pouco tempo, tratar a deidade por... "Deus/a" ou, pior, "deusa".


Lamento muito que a Ultimato promova este tipo de texto em suas páginas. Como disse, não foi o primeiro texto publicado na revista a gerar forte desconforto em mim. Por isto, reitero: por amor aos membros da igreja em que sirvo, não posso mais promover de boa fé a revista entre eles. Textos como este, longe de edificar, semeiam a contenda, a confusão e, no fim, uma representação pagã do Deus da Bíblia – majestoso, transcendente, cheio de glória, e que oferece o seu único Filho, em quem ele tem todo o prazer, para morrer por pecadores. Não preciso ir além da linguagem da Bíblia para, diante da revelação e beleza do evangelho, afirmar com as Escrituras que Deus Pai é amor, e sabemos disto, pois ele ofereceu seu único Filho como propiciação pelos nossos pecados, e este amor experimentamos em toda a sua exuberância por o Espírito Santo ter sido derramado sobre nós.

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Ao responder às feministas, notamos que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento usam o gênero masculino quando se referem a Deus. Uma dessas analogias é a analogia paterna.1 Isto seria um indício de que Deus é do gênero masculino? Alister McGrath escreve:


Falar em Deus como pai é dizer que o papel do pai no antigo Israel permite compreendermos melhor a natureza de Deus. Isso não significa dizer que Deus seja do gênero masculino. Nem a sexualidade masculina, nem a sexualidade feminina devem ser atribuídas a Deus. Pois a sexualidade é um atributo que pertence à ordem da criação, sendo inadmissível aceitar uma correspondência direta entre esse tipo de polaridade (homem/mulher), conforme se observa na criação, e o Deus criador.


Na verdade, o Antigo Testamento evita atribuir funções sexuais a Deus, devido à ocorrência de fortes traços pagãos nesses tipos de associações. Os cultos à fertilidade dos cananeus davam ênfase às funções sexuais tanto dos deuses quanto das deusas; portanto, o Antigo Testamento recusa-se a endossar a idéia de que o gênero ou a sexualidade de Deus seja uma questão importante.

Então, para McGrath, qualquer tentativa de atribuir sexualidade a Deus representa uma volta ao paganismo. Ele continua: "Não há a menor necessidade de trazer de volta as idéias pagãs dos deuses e deusas para resgatar a noção de que Deus não é nem masculino nem feminino; essas idéias já estão potencialmente presentes, se não forem negligenciadas, na teologia cristã".2

Na verdade, existem imagens maternais de Deus na Escritura. Deus é revelado como uma mãe pássaro (Rt 2.12; Sl 17.8; Mt. 23.37), uma mãe ursa que luta para proteger seus ursinhos (Os 13.8) e como uma mãe que consola seus filhos (Is 66.13). A presença de imagens paternais e maternais é evidência que apóia a conclusão de McGrath. Deus transcende as categorias do gênero humano. Não obstante, em lugar nenhum a Bíblia chama Deus de "mãe". Portanto o título "mãe" não deve ser próprio para se falar da pessoa de Deus. Podemos reconhecer a plenitude da riqueza das imagens bíblicas de Deus, sem ir além da linguagem que a própria Bíblia emprega ao descrevê-lo.



1 - Cf. o capítulo 2, onde analisamos a natureza analógica da linguagem teológica.

2 - Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 315-316. Vale a pena ler toda a argumentação de McGrath nesta obra, com especial atenção para a citação final, da mística medieval Juliana de Norwich.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O que estamos nos tornando?

Randy Alcorn

Cada dia, nos tornamos alguém; a pergunta é: quem? O autor Jerry Bridges, ouvindo-me dizer isso, contou-me que Dawson Trotman, fundador de The Navigators, costumava dizer: "Você será aquilo que está se tornando agora".

As Escrituras falam sobre esse processo de desenvolvimento do caráter: "E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito" (2 Co 3.18).

Você se torna aquilo que resolve contemplar. Contemple a Cristo, você se tornará semelhante a ele. Contemple a superficialidade e a imoralidade, e será previsível o que você se tornará.

Aquilo que você se tornará será o resultado cumulativo de suas escolhas diárias."A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito" (Pv 4.18). Essa é a razão por que as Escrituras nos advertem contra as escolhas erradas: "Não entres na vereda dos perversos, nem sigas pelo caminho dos maus. Evita-o; não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo" (Pv 4.14-15).

Nossas escolhas fluem de nosso coração. Por isso, temos de guardá-lo da contaminação: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv 4.23). Qual é a maneira mais eficaz de contaminar uma fonte de água? Envenená-la em sua origem. Se você não guardar seu coração dos valores do mundo, se conformará ao mundo (Rm 12.1-2). Conformar-se ao mundo exige tanto esforço como o descer uma correnteza. Ser transformado pela renovação da mente é nadar para cima, contra a correnteza. Renovar a mente exige esforço deliberado e consciente.

Você se tornará o produto daquilo em que resolve se deleitar e meditar.O Salmo 1 contém uma fórmula poderosa para a perseverança: "Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite".

Todos nós meditamos e somos moldados pelo objeto de nossa meditação. Tiramos de nossa meditação as nossas sugestões de comportamento e de atitudes. Nesta semana, serei moldado pelas comédias situacionais, óperas, jornais ou serei moldado por Isaías, Lucas, A. W. Tozer, Charles Haddon Spurgeon? Depende de como resolvo gastar meu tempo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Cruz de Cristo


Sexta-feira da Paixão é a data tradicionalmente relembrada como sendo o dia em que Cristo foi crucificado.

A morte de Cristo na cruz é um fato central para o cristianismo. É interessante que é da palavra latina “cruz” que vem a palavra “crucial”, isto é, central, importante. Para os budistas, não importa muito como Buda faleceu, mas faria toda a diferença do mundo para os cristãos se Jesus tivesse morrido de um ataque cardíaco nas praias do Mar da Galiléia.

A cruz é o símbolo universal do cristianismo, mesmo num mundo onde mais e mais ela tem perdido o seu significado. Numa pesquisa recente feita na Austrália, Alemanha, Índia, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, ficou claro que o símbolo da MacDonalds (o arco dourado) e o da Shell (uma concha amarela) eram muito mais conhecidos do que a cruz. 92% das pessoas reconheceram os cinco anéis como símbolo dos Jogos Olímpicos e 88% reconheceram o símbolo do MacDonalds e da Shell. Mas somente 54% identificaram a cruz como sendo o símbolo do cristianismo.

Muitos dos que a identificam ofendem-se com ela. A cruz de Cristo é motivo de ofensa para muitos hoje, como foi na época em que os primeiros cristãos começaram a falar dela como o caminho de Deus para a salvação. O apóstolo Paulo escreveu: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus... nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1 Coríntios 1:18,23). A feminista Dolores Williams é um exemplo moderno de pessoas que se ofendem com a cruz. Ela declarou: “Acho que não precisamos de uma teoria em que os pecados têm que ser pagos pela morte de alguém. Acho que não precisamos de um cara pendurado numa cruz, sangrando, e outras coisas desse tipo”.

Podemos compreender a repulsa natural que as pessoas sentem. A execução por morte de cruz era algo terrivelmente cruel. Na verdade, era sadismo legalizado. Foi provavelmente uma das formas mais depravadas de execução jamais inventada pelo homem. Nada mais era que morte lenta por tortura. E realmente funcionava. Ninguém jamais sobreviveu a uma crucificação.

Mas para os que crêem, a cruz faz perfeito sentido. A salvação do homem só pode ocorrer através de uma satisfação dada à lei de Deus, que o homem quebrou e tem quebrado sempre. Somente Deus pode perdoar. Mas somente o homem pode pagar. Cristo colocou-se no lugar do homem, como representante dos que crêem, e sofreu a penalidade merecida, satisfazendo a justiça divina. Até mesmo pensadores não cristãos afirmam a necessidade da punição merecida. O pesquisador C. A. Dinsmore examinou as obras de Homero, Sófocles, Dante, Shakespeare, Milton, George Elliot, Hawthorne e Tennyson, e chegou à seguinte conclusão: “É um axioma universal na vida e no pensamento religioso que não pode haver reconciliação sem que haja satisfação dada pelo pecado”.

Portanto, para os que crêem, a cruz é mais que um símbolo a ser levado no pescoço ou pendurado nas paredes da igreja. É o caminho de Deus para salvar todo aquele que crê.

Quando a Igreja esquece o sentido da cruz, ela se desfigura. Ouçamos as palavras de Erwin Lutzer, em seu livro A Cruz de Hitler (1994): “Se as fornalhas de Auschwitz foram preparados nos corredores das universidades da Europa, podemos dizer também que aquelas fornalhas foram alimentados pela teologia liberal que dominou as igrejas e a teologia da Europa. Essa teologia glorificava o homem e declarava que Deus era irrelevante. Esse tipo de ensino amputou a capacidade da Igreja de tomar uma posição firme contra as atrocidades do Terceiro Reich. Ao substituírem a revelação de Deus contida nas Escrituras por ideais humanos, acabaram por reinterpretar a cruz de Cristo e usá-la para levar adiante uma agenda pagã.”

Queira Deus sempre nos manter conscientes da cruz de Cristo e do seu sentido.

Augustus Nicodemus é blogeiro (tempora-mores.blogspot.com), pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, e autor de vários livros.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Angra dos Reis

“Se não fora o Senhor, que esteve ao nosso lado (...) as águas nos teriam submergido, e a torrente teria passado sobre nós; sim, as águas impetuosas teriam passado sobre nós.” (Salmo 124.2, 4-5)

Foram 52 mortos! E, ainda temos um corpo para ser encontrado na Ilha Bananal – onde uma pousada foi destruída – e o corpo de uma garotinha que ainda não foi reconhecido pelo seu pai! Os dramas humanos são inúmeros: famílias inteiras foram varridas pelos deslizamentos aqui no centro da cidade. No “Morro da Carioca”, somente o Sr. Jorge Carvalho perdeu a esposa e quatro filhos e ainda aguarda reconhecer o corpinho de sua filha que aguarda por exame de DNA. Casas foram destruídas em fração de segundos devido às chuvas que, nas primeiras horas do primeiro dia de janeiro de 2010 caíram em nossa cidade no equivalente ao mês inteiro de Janeiro!

Angra, para os leitores terem uma idéia, tem uma população de cerca de 140 mil habitantes, onde 65% moram em morros. Destes, cerca de 3500 pessoas estão desalojadas! E encontram-se impedidos de habitar em suas casas, procurando abrigo em casas de parentes, escolas e alugando outras residências com valores abusivos – para se ter uma idéia, casas que antes se pagava R$ 350,00 por mês, agora valem R$ 500,00.

Nossa igreja empenhou-se desde o inicio do ano em visitar as comunidades atingidas, mantendo um posto de arrecadação de doações em nosso templo, promovendo um cadastro de pessoas atendidas por cestas básicas e levantando recursos dentro e fora da igreja para minorar o sofrimento das pessoas. Já distribuímos até o presente momento cerca de 150 cestas básicas, roupas diversas, mais de 1000 litros de água potável e estamos mantendo três famílias da igreja com aluguel. Solidários com o que está acontecendo no Haiti, semana passada ofertamos R$ 600,00 para o país caribenho.

O quadro em nossa cidade é de pânico. Ainda não consegui ministrar uma mensagem nos nossos cultos de meio de semana (quinta-feira), pois sempre acontecem tempestades, ventanias, queda de energia elétrica e algo mais. Foram comprometidos os serviços de telefonia, energia elétrica, abastecimento de água, telefonia celular. Ainda mais, vamos ter de disponibilizar recursos aqui para uma obra em nosso templo, pois fomos “alagados” também pelas chuvas – ao todo, o investimento chegará aos R$ 5000,00.

Eu creio, junto com John Wesley, que Deus nada faz que não seja em resposta às nossas orações, e que os seus planos não podem ser frustrados nas orações e súplicas sinceras de seu povo. Lembrei à igreja o exemplo de Elias que segundo Tiago 5.17-18 era homem “sujeito às mesmas paixões que nós” e orou para que não chovesse, e por três anos não choveu! Creio em um Deus que age providente e sempre para cumprir primeiramente sua própria vontade, e em segundo plano, o nosso deleite no plano dele. Eu estou muito interessado em desfrutar do prazer do Senhor em meio a tudo isso que anda acontecendo em Angra dos Reis.

Para terminar, considerações e aplicações bem pessoais:

1. Fiquei muito tocado na cena que presenciei no velório coletivo. A morte de fato não escolheu classe social em nossa cidade. Faleceram ilustres da classe média-alta, incluindo familiares e amigos do prefeito de Arujá, da região metropolitana de São Paulo. E, também pobres trabalhadores que lutavam para sobreviver com salário mínimo. É sempre assim, na morte todos os homens se prostram diante do mesmo patamar: a humanidade.

2. Nossa igreja envolveu-se e ainda está “em alerta”, mas há muitos crentes que parecem que ainda estão de férias em seus mundos particulares. É triste, mas nem todos estão cumprindo o que eu recomendei desde o inicio do ano: cancelem os churrascos, as festas, os passeios, é tempo de chorarmos pelos nossos mortos. Eu mesmo, para dar exemplo, cancelei minhas férias. Nossa igreja precisa chorar mais!

3. É tempo de clamor por Angra dos Reis! Nossa cidade é parasidíaca, atrai turistas o ano inteiro, artistas se amontoam aqui, mas, uma coisa precisa ser dita: Angra dos Reis precisa de Deus! Com o cancelamento da festa do primeiro dia de ano (procissão marítima, uma espécie de culto a Iemanjá, que na verdade representa uma entidade demoníaca) e aniversário da cidade (seis de janeiro, dia dos reis magos, onde a cidade é oferecida ao forte império católico que predomina aqui), penso que há um vácuo em nossa cidade que precisa ser preenchido com a pregação fiel do genuíno evangelho do Senhor Jesus Cristo. Não creio que temos de nos aquietar quando tudo isso passar, pelo contrário é mister que sejamos ousados para proclamar que, em toda a terra se verifica que há sinais se cumprindo, que devem ser considerados apenas como “prenúncios” de que algo de extraordinário está para acontecer! E aqui me refiro à segunda vinda do Senhor Jesus! (cf. Mateus 24)

Por fim, o apelo: visitem o site da nossa igreja (www.ibacen.com.br) e caso sejam movidos a isto, depositem em nossa conta: IGREJA BATISTA CENTRAL EM JAPUIBA, Banco Bradesco, Ag. 0459-6; C/C 28972-8 um valor para acrescentar ao que temos investido nas seguintes frentes: compra de cestas básicas e ajuda para os aluguéis dos que perderam suas casas.

Não dá para não relacionar o que estamos vivendo com a pungente poesia de John Donne, pastor anglicano em seu magistral poema, Devotions Upon Emergent Occasions, em 1623:

    Nenhum homem é uma ilha plena em si mesma.
    Cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo.
    Se uma porção de terra é levada pelo mar,
    a Europa é levada, como se um penhasco fosse,
    como se a casa dos teus amigos ou a tua própria fosse.
    Toda morte humana me diminui, porque sou parte da humanidade.
    Então não queira saber por quem os sinos dobram:
    eles dobram por ti.

São os sinos tocando, anunciando as notas tristes de nossa situação por aqui. Temos de chorar nossos mortos, levantar os que estão caídos, arrumar casas para quem está sem abrigo. Não podemos cruzar os braços e permanecer inertes. Deus nos cobrará em nosso empenho para amenizar a situação de tantos seres humanos como nós, e que estão sofrendo. O evangelho que não for compartilhado com uma toalha (símbolo de serviço) em uma das mãos e a Bíblia (nosso referencial de verdade) em outra, não tocará corações a ponto de haver genuínos sinais de um verdadeiro avivamento em nosso meio. Chega de indiferença! É tempo de crermos que “Deus não tem outras mãos, exceto as nossas”!